Sofrimento - Textos

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Transcrição da palestra 'Sofrimento', realizada em Bom Jesus dos Perdões - SP

Sofrimento - Textos

O que o espírito vem fazer na Terra?

Participante: como tudo isso começou? Porque viemos cair aqui?

Porque você pediu. Veio parar aqui porque precisa disso aqui.

Você sabe o que a criança ou o adolescente fala? ‘Para que que eu preciso ir para escola?’. Você está agindo igualzinho. Veio para a escola e reclama que não está se divertindo.

Participante: se eu sou um espírito e se o espírito é puro, o que foi que o tal do espírito fez que precisou vir para Terra e passar por tudo isso para aprender?

Usou o seu livre arbítrio.

O espírito usou o seu livre arbítrio, fez opções individualistas e agora precisa aprender o que estas opções faz com ele.

Participante: nesse sentido, me parece que o espírito não é tão puro, pois se fosse, não iria escolher o individualismo.

Participante: me confirma isso para ver se eu estou me lembrando certo. O espírito nasce puro e vai adquirir conhecimento. Nesse processo de adquirir conhecimento “se perde” e adquire algumas energias que não condizem com o estado de puro.

O espírito é um brilho.

Pense em uma lâmpada. O espírito é o brilho da lâmpada. Só que de tanto a lâmpada ficar exposta ao relento, acaba se sujando. O brilho continua sendo o mesmo, mas o seu reflexo está sujo. Por isso é preciso limpar a lâmpada.

Então você veio para cá para se limpar.

Participante: se já era brilho, porque se sujou?

Porque tem o livre arbítrio. Ele pode viver universalmente ou pode querer para si.

Como foi dito, primeiro ele estuda, depois vai pegar o que foi estudado e usar. Aí então ele usa para benefício próprio. Isto chama-se individualismo ou egoísmo.

Em última instância, esse é o carma de todos vocês. Todos que estão no planeta Terra são espíritos egoístas que convivem no mundo espiritual com egoísmo.

Se não tiver mais egoísmo, não encarna aqui.

Participante: o espírito é uma coisa e o ser humanizado aqui é outra coisa. Só que essa matéria do ser humano é feita por genes e eles são altamente egoístas. Nós somos formados por seres egoístas. Todos os genes são egoístas, querem se maximizar, vencem os mais fortes... Como a gente pode viver de uma forma diferente estando dentro de um corpo que já tem a genética egoísta? Como a gente sai disso?

Este campo de prova que você está ligado agora, este trabalho de evolução que está fazendo, é chamado de trabalho de evolução moral. Sendo assim, estou falando de egoísmo moral e não material. Isso quer dizer que você pode ter um corpo totalmente egoísta e não ser egoísta moralmente.

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Cumprindo a missão

Participante: e o Exército de Maria?

O Exército de Maria é para ajudar aqueles que estão na luta contra o seu egoísmo

Participante: nós somos do Exército. Isso quer dizer que eu encarno para ajudar a mim mesmo?

Não. Encarna para ajudar os outros. Só que se pegar a vida de todos os missionários, de todos os santos, eles tiveram seu período de humano, de egoísta. De repente eles acordam e começam a agir não egoisticamente e ajudam os outros a não ser egoísta.

Todo santo não nasce santo, nem Jesus. Se você não se ajudar, como vai ajudar o outro?

Você precisa compreender: precisa se ajudar e enquanto se ajuda, ajuda o outro. Enquanto faz em você o outro está vendo e com isso ajuda o outro a fazer nele.

Participante: então é pelo exemplo?

É uma espécie de exemplo. Não como normalmente entendem exemplo, atos, ação, mas um exemplo de como viver a vida que se apresenta.

Quando você consegue superar o seu egoísmo, quando consegue se libertar de algumas coisas, vive de uma determinada forma. Essa forma de viver interna é que é o exemplo para os outros.

Participante: na minha percepção quando você acha que se superou que se livrou de determinada situação, aí vem a vida e dá mais outra, e isso não para...

Na hora que parar, você vai embora, porque não haverá motivo para estar aqui.

Participante: então, vai ficar uma inconstância...

Não. Vai ficar uma constância de trabalho.

O que fará não é algo do tipo “agora eu faço automaticamente...” Não é isso que se precisa ensinar aos outros. O que é preciso é mostrar que eles precisam trabalhar constantemente, enquanto estiverem encarnados.

É por isso que a vida, as vezes, até torce um pouco mais o parafuso. Se você já venceu aqui, vamos torcer mais uma volta para ver como fica...

Se não estiver preparada para a “desgraça”, como você chama, não vai fazer nada. Vai achar que a vida vai virar cor de rosa. Esse “cor de rosa” da vida que sonham é que é o grande problema.

Essa vida cor de rosa não existe. É preciso sempre ter a consciência de que o parafuso será apertado, pois todos estão sempre vivendo novos problemas. Todos. Por isso é preciso estar sempre atento à questão do não depender da vida para ser feliz.

Essa constância, aliás, foi a primeira coisa que estudamos nessa caminhada. Estou falando da segunda logia do Evangelho de Tomé: “Aquele que está buscando, não pare de buscar”

Logia 002 – Reforma íntima - “002 - Jesus disse: Aquele que procura, não cesse de procurar até quando encontrar; e quando encontrar ficará perturbado; e ao perturbar-se, ficará maravilhado e reinará sobre o Todo”.

Então, você tem que estar sempre buscando, sempre atento. Cada vez que se aproxima um problema precisa fazer uma ação interna para viver aquele problema de uma forma diferente. Não há como se automatizar isso.

Participando: seria até mais pesado para as pessoas do Exército de Maria, não? Porque para quem muito foi dado, mais será cobrado...

Não chega a ser pior, porque tem que se preservar a missão. Muitas vezes é até relevado um pouco para que a missão continue.

Participante: fica mais fácil, se alguém do grupo tem um determinado problema e coloca o problema, fica muito mais fácil a gente ajudar.

É por isso que foi insistido para que houvesse as Sanghas.

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Ajudando pessoas

Participante: eu tenho acompanhado todas as palestras que estão sendo feitas com o grupo de São Carlos em como ajudar... Estes dias encontrei com uma pessoa que fazia muitos anos que não a via, e ela contou que tinha perdido tudo, família, carro, dinheiro... Estava endividada, precisava muito conversar, precisava de um amigo, etc. Eu fiquei olhando para a pessoa e fiquei me perguntando o que eu vou falar para ela? Na hora me bateu aquele silêncio.

Poderia ter falado: ‘que bom, seu caixão vai mais leve’. Já pensou botar carro, dinheiro, apartamento, as casas, suas posses, dentro do caixão? Vai ficar pesado ...

Não importa o que o outro esteja passando, o que precisa falar é o seguinte: ‘você tem duas formas de viver isso que está passando. Pode se entregar ao sofrimento, se lastimar, lamentar ou pode tentar resolver. Tem como resolver? Não. Quer se lamentar, se lastimar? Não. Então, tem que aprender a viver com a falta do que tinha’. É só isso.

É simples, mas tem um detalhe que não lhe deixa conseguir viver com essa simplicidade que, aliás, é o assunto que vamos conversar hoje.

Participante: eu entendi bem este lado do grupo, apesar de cada um ter sua religião, sua crença, todos estão em um meio em que se fala a mesma língua, que tem determinados ensinamentos como referência. Assim fica mais fácil. Agora uma pessoa que nunca ouviu falar sobre o Joaquim, que tem uma outra crença, como ajuda-lo? Como uma amiga que descobriu que está com câncer de mama e eu falei que iria tratá-la como se tivesse com uma doença comum, como gripe. As pessoas me taxaram como insensível. Eu não vou bajulá-la porque ela quer aquela atenção, aquela dó.

Se uma pessoa chegasse para mim dizendo que estava com câncer e se lastimando, aconselharia a dar um tiro na cabeça: é menos sofrimento. Se vai sofrer de agora até a hora da morte, morre agora logo. É melhor.

Agora, se você sabe que vai morrer daqui a dois, três ou quatro meses, a pergunta que precisa se fazer é a seguinte: vai perder o tempo que lhe resta sofrendo? Aproveite esse tempo ...

Procure cura, faça todo possível para se curar, mas compreenda uma coisa: a cura só vai acontecer, se tiver que acontecer. Se não acontecer, você vai morrer. E se vai morrer, preste atenção: você ainda está viva, tem um tempo para viver; por isso, aproveite-o.

É isso que precisa ser feito. É preciso chocar a pessoa que está nesse processo, porque ela acha normal sofrer, mas sofrer não é normal: é antinatural.

Participante: mas, depois você acaba vendo que a sociedade, os demais, ficam incentivando mais ainda o sofrimento. Quem é da sangha acaba se isolando porque o mundo deles é buscar o sofrimento, e acabamos nos afastando para não sofrer junto com eles.

Você deu o seu recado. Quer fazer? Faz. Não quer fazer? Não faz. O problema é deles; sofre quem quer.

Participante: uma coisa que estou tentando por na minha cabeça é que não somos responsáveis pelo sofrimento do mundo. Não conseguimos controlar o nosso, que dirá o dos outros, por mais amigos que sejam, filhos...

Participante: mas as pessoas esperam que você alimente o sofrimento deles. Se não der ...

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Nem tudo é bom

Participante: por falar em notícia, não tem novidades lá de cima não?

Tem, as coisas vão piorar ... Se você está esperando chegar um salvador da pátria, é melhor sentar ... Vai piorar para a humanidade como um todo. Cada dia vai ficando pior. A tendência é sempre ficar pior.

Agora, qual o problema de ficar pior? Só tem problemas para quem? Para quem quer que fique melhor. Porque aí ele se desilude, cai em depressão ... Se você não quiser que fique melhor, não vai se chocar com o pior.

Se você cair na ilusão da coisa boa, maravilhosa, que coisa linda, que felicidade, o que acontece? Vai cair. Porque vai cair? Porque a vida existe em alternância de situação.

Quem está hoje no bem tem que saber que amanhã vai cair. Não para abandonar o bem, o bom ... Não, é para dizer a si mesmo: ‘está certo, hoje está ótimo, maravilhoso, mas não posso cair na ilusão de que isto vai durar a vida inteira. O mal vai acontecer.’

A vida é assim e não precisa de O Livro dos Espíritos para aprender isso, apesar de estar lá. Basta olhar sua vida. Quando durante essa existência o bem, o bom, a normalidade foi algo eterno? Nunca. Nem mesmo se pensarmos num único dia. No mesmo dia você tem momentos de alto e de baixo. Então, aquele que se entrega quando está no alto, que acha que agora está tudo bem e que não vai ter problema nenhum, vai cair no baixo.

Vocês vivem sonhando com o paraíso na terra. Vivem sonhando com uma vida ótima, linda e maravilhosa, onde não vai haver problemas e não vai faltar nada. Esta civilização tem mais de sete mil anos e nunca aconteceu isto na vida de ninguém.

Só que para viver em paz as alternâncias da vida, é preciso perder o medo da caída.

Participante: não é possível viver o paraíso porque a gente está vivendo um mundo de provas, mas no mundo de regeneração ...

Também não.

Segundo Cristo, a felicidade não é deste mundo. Isso não quer dizer que você não possa viver em felicidade neste mundo. Pode. Agora, essa não é uma felicidade marcada pela satisfação, ou seja, por acontecer aquilo que você quer que aconteça, mas uma felicidade onde se vive feliz em paz e harmonia independente do que a vida apresenta. Não estou falando da felicidade de escancarar a boca, mas em viver em paz e harmonia com o que acontece. Isto é possível.

Só que para chegar a isso, lhes falta um detalhe, que é exatamente o que já foi falado: o medo do problema futuro. Vocês têm medo do problema futuro. Exatamente o que você acabou de dizer: não consigo gozar o momento bom, porque sei que amanhã vou cair. Sim. É exatamente por isso.

Participante: e aí a impressão que dá é que você nunca sai e continua mal até o final porque não consegue sair ...

Sim. Exatamente isso. E é isso que vamos conversar hoje.

Participante: como tudo sempre vai piorar, piorar e piorar ...

Um momento, deixe-me só colocar uma coisa. Não é que as coisas vão sempre piorar; vocês é que vão ver sempre pior no que acontecer.

Piorar seria fazer um mal a você. Esse mal depende do ponto de vista humano, ou seja, vai ser mal, mas não é, é bom.

Participante: onde que termina esta linha aqui no planeta Terra? Vai piorar, no ponto de vista humano, piorar e piorar, mas qual é o fim, o objetivo dessa decadência, a partir do ponto de vista humano? Vai recomeçar do zero para a humanidade?

Não. Para a humanidade vai continuar sempre havendo quedas. Só que, quando passar o processo de transição, vai dar uma estabilizada e depois continua havendo novos problemas.

Não existe um dia para isso acontecer. Não como hoje mudar para um amanhã melhor. As coisas vão melhorando normalmente em um período de cem anos.

Agora, nisso tudo que conversamos, o importante é saber que não acontece o pior, mas sempre o melhor. Só que você chama de pior.

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Desapego

Participante: o fato de acharmos que é pior é porque estamos apegado ao que é comum, tem a ver com o apego isso.

Tem a ver com apego mas também tem a ver com uma coisa pior ainda do que o apego. Aliás, pior que o egoísmo.

Participante: uma coisa curiosa que me vem à mente é que é natural pensar que quanto maior o número de posses, ou de apegos, maior é o número de sofrimento. Só que uma vez que compreendemos isso, vamos nos desapegando. Deixando posses de lado e se desapagando. Só que por menor número de apegos que a gente tenha ou mais simples, ainda continua gerando um sofrimento. Nos libertamos de uma posse mais agressiva, mas a gente continua sofrendo com uma posse menor. O sofrimento se mantém mesmo com um número de posses menores.

Ele se mantém, mas não por culpa do que acontece e sim porque ainda há um detalhe nesse desapego que você faz.

O ser humano se desapega das coisas, mas não cessa o sofrimento. Por exemplo, as religiões que falam em desapego - hinduísmo, budismo. Elas ainda tratam o desapego de uma forma que não estanca o sofrimento. Por mais que você se desapegue, apenas está trocando um apego por outro: o apego por um objeto pelo apego a um ensinamento.

Então, não há um desapego de verdade. Você pode se desapegar de seu carro, por exemplo, mas não vai se desapegar de uma coisa que surge por causa do desapego ao carro.

Aliás, é isso que vamos conversar hoje.

Participante: ou seja, a gente troca a posse material por uma posse espiritual, mas posse espiritual gera sofrimento porque ainda é uma posse.

Perfeito. O prazer de ter desapegado. Você troca o prazer de ter um carro pelo prazer de estar desapagado, mas continuou preso ao prazer.

Participante: a natureza do prazer ainda está lá. Você só trocou o prazer.

Isso, só trocou o objeto.

Vocês que são mais antigos devem se lembrar quando conversamos sobre desapego e eu disse assim: é como se fosse uma montanha de folha de papel uma em cima da outra. Você tira a primeira e acha que já fez muita coisa. Só que há uma montanha de coisas para se desapegar.

Quando se desapega da comida, encontra o apego no ar. Nesse momento, tem que se desapegar do ar. Na hora que realizar esse desapego, vai descobrir que é apegado ao sol. Nesse momento, tem que se desapegar do sol. É assim: tem que ir puxando papel por papel.

Outro exemplo que já dei também sobre o trabalho do desapego: os tijolinhos. O conjunto dos seus apegos é como um prédio imenso. Você tem apenas um martelo para quebrar cada tijolinho que constrói aquele prédio. Só que quando não quebra um, surge outro em um lugar que já tinha quebrado.

É preciso estar batendo o tempo inteiro. Não importa o que aparecer, tem que estar batendo o tempo inteiro. Senão fizer isso, não vai destruir o prédio. O prédio dos conceitos, daquilo que você é apegado. Cada tijolinho desses é alguma coisa desse mundo que você é apegado.

Participante: todos vão se desapegar das mesmas coisas?

Não. Há provas de todos e há provas individuais. Além disso, há apegos específicos dependendo do país que se nasce, da cidade que se vive, da família que se viver.

Todos que encarnam vão se desapegar, mas não da mesma coisa.

Participante: O denominador comum é o egoísmo, não? Então, precisamos trabalhar o egoísmo de uma forma universal, não importando o seu carma ou a situação que se encontra

Sim.

O ser humanizado se desapega da prisão ao carro, mas ao se libertar dessa prisão, se apega em outra coisa. Portanto, só trocou a folha: tirou uma pôs outra. Não jogou fora, não amassou e jogou no lixo. Por isso nada fez.

Na verdade, hoje o que quero é ensinar vocês a ligarem o ventilador para todas as folhas irem embora. Vamos lá?

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O que é um sofrimento?

Qual o tema da conversa de hoje? A vida na carne.

Será que depois de dezoito anos falando de vida na carne, ainda tenho algo que falar sobre a vida na carne? Sim, tem muita coisa que nunca falamos. Por isso hoje vamos escolher uma coisa que acho que nunca falei: o sofrimento. O sofrer.

Nunca falei em sofrimento. Posso ter falado em sofrer, mas nunca conversamos sobre o sofrimento realmente. O que é um sofrimento, porque que surge o sofrimento, ele se origina de onde? Isso nós nunca conversamos.

Já falamos em sofrer e não sobre o sofrimento. De onde surge o sofrimento? Como é que ele acontece? Porque vocês sofrem? É sobre isso que vamos conversar hoje.

Começo perguntando: o que é um sofrimento?

Participante: uma contrariedade do que a gente quer.

Sim, está certo: é uma contrariedade do que você quer.

Portanto, a partir desse conhecimento, seria simples não sofrer: bastava não querer alguma coisa. Você consegue? Não. Porque? É isso que quero responder hoje. Vamos começar tentando entender o que é sofrimento.

O sofrimento e o prazer não são energias, não são emoções, não são sentimentos. Sofrimento é uma postura que o ser toma frente a algumas coisas. É uma postura mental. A mente vive algumas coisas em sofrimento.

Porque posso dizer que o sofrimento é uma postura mental, uma razão? Porque pessoas passam sem sofrer pela mesma coisa que você passa sofrendo.

Porque um sofre e outro não, se está acontecendo a mesma coisa aos dois? A forma como se encarou aquilo. Esta é a postura mental, a razão. A razão de um é ‘sofra, isso tem que ser vivido em sofrimento’, já a de outro não diz a mesma coisa.

Para alguns a mente fala da necessidade de sofrer, para outros fala outra coisa. Na verdade voltamos ao que comentamos há pouco: o apego. Quem está apegado em uma coisa, sofre; quem não está, não sofre.

É isto que é sofrer. Sofrer não é uma energia, raiva, ódio, descrença, ansiedade... Isto não é o sofrer. Afirmo isso porque tem pessoas que podem estar ansiosas sem sofrer, que podem ser ofendidas sem se ofender, sem sofrer.

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Sofrer

Participante: é possível a pessoa estar agressiva, com ódio, com raiva, se debatendo, gritando sem estar sofrendo?

Pode. O ato é o ato, a emoção interna é outra coisa. Você pode estar gritando, falando e estar bem ...

Participante: o que a gente vê muito é que se você for uma pessoa espiritualizada não tem o direito de se sentir irado sobre qualquer coisa.

Mas tem. Tem todo o direito.

Se você tem a missão, e todos tem, de agir frente ao outro para contribuir para obra geral e se o outro precisa ouvir um grito, você tem que gritar. Agora, enquanto grita, não precisa estar sofrendo.

Participante: eu posso sofrer porque não queria estar gritando, por exemplo.

Poderia. E daí, o que vai acontecer?

É aquilo que sempre digo: o ato é totalmente escrito por Deus de acordo com a necessidade daquele que vai receber sua ação. Então, o ato precisa acontecer e não há nada de errado nele. O que você precisa promover é a reforma íntima, a mudança do seu íntimo e quando na mudança do seu íntimo está em paz e harmonia com o mundo, mesmo que a boca esteja gritando, fez o que precisava fazer.

Participante: está ligado à intencionalidade? Gritar, não perceber que está fazendo isso e depois ficar com culpa? A mente gerou isto depois. Uma vez você deu um exemplo assim, se a pessoa chegar e matar por matar, igual quando fazemos com uma formiga, não há problema. Agora se ela tiver a intenção de, aí ferrou...

A intencionalidade é um dos motivos que estão presentes na razão que propõe o sofrer.

Com relação ao que me perguntou, Cristo é muito claro: Deus julga a intenção de cada um. Então, é o que você quer fazer, a intenção. Que conta.

Participante: se você não tem intenção de gritar, mas gritou...

 Não tem problema. O grito é um ato. Agora quando você assume a culpa por ter gritado, demonstrou uma intenção.

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No trabalho

Participante: já vi isso em pessoas não espiritualizadas. Eu tinha um chefe no trabalho que na hora do trabalho era muito bravo, gritava, esbravejava com todo mundo só vivia feroz. Quando saía do trabalho, ia tomar chopp com os amigos, virava um doce de pessoa.

Sim. Porque ali ele era um profissional e o profissional tem que trabalhar profissionalmente.

Quando fizemos o estudo Em Busca da Felicidade, falei bem claro: se você vai para o trabalho para fazer amiguinhos, para ter uma festa, tomar cafezinho, se divertir, está enganado. Você tem que trabalhar, tem que render para seu patrão. Senão vai chagar na hora do salário e seu patrão pode dizer que está sem dinheiro porque você estava fazendo festa. Você vai aceitar isso? Claro que não.

Participante: e se o trabalho é para ter confusão, tudo certo então, é para ter confusão mesmo no trabalho. Na minha realidade o trabalho é sempre confusão, briga, é sempre ódio. Então, o ambiente é este mesmo, é o caminho, é a briga...

É este o seu ambiente do seu trabalho? Então pronto, você tem que aprender a conviver com aquilo, ou melhor, não tem que aprender: pede demissão e vai embora ...

Participante: mas aí não dá, né?

Ah! Mas ai não dá ...

Se não dá para trocar de emprego, você tem que aprender a conviver com o que tem. O que não pode é querer viver lá dentro como você quer, como acha bom, como gosta. Isso chama-se egoísmo. Você não pode querer ganhar o seu salário, ter o emprego e querer que o seu patrão lhe diga: “quando você quiser trabalhe, está bom?”

A maioria quer ganhar seu dinheiro, quer ter seu trabalho mas quer que todos dentro da empresa a respeite. Respeito não se cobra, se dá. Você tem que respeitar os outros para ser respeitada. Por isso, se os outros vivem fazendo confusão, tem que respeitar o jeito de ser deles.

Participante: sim, mas não estou querendo dizer isso. O que quero dizer é se o ambiente, pode ser no trabalho ou outra coisa, se o meio externo exige que seja necessário a briga, se necessário foi. É isso?

Não é o meio externo que exige; é a sua programação de encarnação. Se você não precisasse passar por aquelas brigas, não estava naquele emprego.

Participante :entendo, mas seria passar pela briga brigando ou tentar passar...

O que acontece ou deixa de acontecer não é com você: é com o que vai acontecer. O que posso falar é sobre o mundo interno e sobre isso afirmo que não pode se revoltar. Se externamente vai brigar também, se vai entrar na onda, o problema é deles, é da vida. Internamente não pode se revoltar por ter entrado ou não, porque estará vivendo de uma forma antiga, de uma forma sem amar os outros.

O amor não é esta coisinha linda não. “ah! Bonitinho, você é tão bonzinho, pode passar na minha frente, pega um cargo maior que eu espero aqui...” Isso para vocês é amor, mas não é: isso é masoquismo. Amor é: eu quero e eu vou lutar para ter e se o outro passar, louvado seja Deus, ele que vá. Isso é amor.

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Quando se sofre?

Sofrimento é uma postura racional, uma postura mental que você toma frente algumas coisas. Quando esta postura acontece? Quando a sua razão cria a ideia de sofrimento? Quando há contrariedade. Quando não acontece o quê? O que você quer.

Sofrimento é uma postura mental que é tomada pela sua mente racional sempre que acontece alguma coisa que você não quer. Sempre que acontece alguma coisa que não é bom, que não lhe faz bem, que não acompanha aquilo que acredita, ou seja, quando acontece o que é contrário à você, a sua mente cria a ideia de sofrer.

Eu nunca vi ninguém sofrer porque ganhou na loteria. Nunca vi alguém sofrer porque nasceu um filho perfeito. Agora se você jogar e não ganhar, sofre; se tiver um filho com problema, sofre. Ou seja, sempre que acontece alguma coisa contrária ao que você quer, a mente toma a postura de sofrimento.

Participante: nesse último exemplo que você deu, o “você” é a mente. Certo?

É você que acompanha a mente. A mente toma a postura e você aceita aquela postura.

Participante: mas o “você” não posso acreditar que é o espírito. Aí vou ficar acreditando que é a mente.

Você. Você ser humano.

Participante: o que eu percebi, e aí procuro falar com as pessoas que me são próximas: não se pode elogiar nada. A partir do momento que elogiou, o negócio desanda. Você também não pode criticar ...

Participante: eu acho que a gente está trabalhando para que todos fiquem mudo, porque ninguém fala, ninguém pensa ...

Falar é mundo externo. Pensar é a prova, é o ego. Estou falando de sentir. O que estamos falando é de inteligência emocional. Você ser um emocionalmente inteligente.

O emocionalmente inteligente precisa compreender que ele sofre porque o mundo está em desacordo com o que ele quer.

Participante: o ápice da evolução é não sentir nada?

O ápice da evolução é viver em paz internamente, viver harmonizado com o mundo, ou seja, não sentir sofrimento quando não acontece o que você quer. É estar no que chamamos de felicidade, que na verdade é uma paz interna.

Concordam com isto?

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O sofrimento e o egoísmo

Se o sofrimento depende do seu querer, pergunto: o que é o que você quer?

Agora que vem o problema. Vocês não vão gostar do que vão ouvir.

Porque o mundo tem que acontecer como quer? Porque o mundo tem que acontecer dentro do que é bom para você, se o que é bom para você pode não ser bom para ele? Porque só o seu bom tem que acontecer e o dele nunca?

Participante: porque não está sintonizado com Deus?

Como se chama essa falta de sintonia?

Participante: egoísmo.

Isso é egoísmo. A busca do que é bom, do que lhe faz bem é um ato egoísta.

Participante: a gente sempre pensa em egoísmo com uma conotação negativa...

Nunca pensa que você querer que o outro não morra, é um ato egoísta, não é?

Quantos se assombraram quando eu disse que se visse alguém com uma arma na cabeça, diria: boa morte. Preciso fazer isso porque não posso decidir a vida dos outros.

Se ele quer morrer, quem sou eu para dizer: não morra? Em troca do que tenho o direito de pedir isso ao outro? Do que eu quero, do que eu gosto? Isso não é amor; é egoísmo.

Juntando o que já falamos, que sofrimento é uma postura mental tomada quando acontece o que você quer, sabe porque sofrem? Porque são egoístas. Porque querem só para si.

Ela falou sobre as brigas do seu trabalho. E se as outras pessoas gostam de brigar? Qual o direito que você tem de mudar os outros só porque não gosta do que os outros fazem? Nenhum.

Se acredita no tal do livre arbítrio de fazer, querer que o outro haja de uma forma diferente que ele escolheu agir, é querer castrar o livre arbítrio do outro. É querer escravizar os outros.

Então o sofrimento acontece, ou seja, você sofre, quando aceita a postura mental ou a postura racional gerada pela mente. Mas, porque a aceita? Porque é egoísta. Só isso.

Só sofre quem é egoísta. Por isso disse que no universo inteiro o sofrimento só existe nesse planeta. Só aqueles que estão em provação com relação ao egoísmo são capazes de sofrer. Quem está livre do egoísmo, ou seja, que vive a sua vida e dá ao outro o direito de viver a dele, mesmo que o que ele faça lhe fira, não sofre.

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Enfrente seus dragões

Participante: é egoísmo se afastar das coisas que nos fazem sofrer então?

É egoísmo.

Você precisa enfrentar os seus dragões. Enfrentar e descobrir o que no dragão lhe faz sofrer para se libertar daquilo que acha ruim. Libertar do ruim que você dá àquilo.

Até porque dificilmente alguém consegue fugir de seus dragões, não é? Você se esconde e ele vai lá e lhe acha.

Participante: até do desejo de não querer que o outro sofra?

Não querer que o outro sofra é egoísmo puro, não é amor.

Participante: não é tão simples assim, pelas nossas emoções, pelas marcas deixadas na infância ...

As marcas deixadas na infância são os dragões que você precisa vencer. Você teve a infância que teve, ela deixou as marcas que tinha que deixar porque agora que você precisa fazer a sua reforma, precisa enfrentá-las. Enfrentá-las eliminando as marcas.

Participante: e quando a pessoa chega a desenvolver uma doença, um transtorno grave por causa destas marcas deixadas na infância?

Ela precisa compreender que está aceitando e que pode viver sem aquilo, sem o que foi desenvolvido.

Tudo nesta vida pode ser vivido sempre de três formas: a primeira é o sofrimento, a lástima. A segunda o prazer, a satisfação de ter. A terceira é a equanimidade, tanto fez quanto tanto faz.

Existem essas três formas. O trabalho da psicologia é justamente levar você para a equanimidade, minimizando o sofrimento. Aliás, o que estamos falando aqui é só psicologia.

Compreender. Aconteceu isto comigo? Aconteceu. Quando? Lá atrás. Trouxe marcas até hoje? Trouxe. Hoje se continuar preso a essas marcas, sabe o que vai acontecer? Vai passar o resto da vida sofrendo. Se não quer mais sofrer, precisa se libertar dessas marcas.

Depois dessa conclusão, trabalhar em você a libertação delas. Como se faz a libertação de uma marca do passado? ‘Aconteceu? Aconteceu. Não há santo que tire. Hoje não está acontecendo. Por isso não preciso trazer o passado para hoje. Acabou’.

Claro que isto não acontece de repente, não é um passe de mágica, é um trabalho, porque a dor vai voltar e voltar... Tem que trabalhar sempre. Cada vez que voltar, trabalhar, trabalhar... Isso até a hora que você se desencarnar.

Participante: se eu estiver errada me corrija, mas quando você fala que vai acontecer até desencarnar, dá a impressão que depois que desencarna dá para resolver, mas não dá, não é mesmo?

Sim, é depois que desencarnar, mas só que desencarnar não é sair da carne, é se desligar dessa consciência.

A carne não existe. É fluído cósmico universal igual a todas as outras coisas. Por isso, o desencarnar que falo não é se libertar dessa massa, é se libertar dessa consciência.

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O vício do egoísmo e o sofrimento

O importante é tentar saber: agora dá para não sofrer? Porque ainda não dá para não sofrer? Porque mesmo sabendo que só sofre porque é egoísta, não consegue se libertar deste egoísmo.

Porque isso?

Participante: porque é a nossa prova?

Não. O egoísmo não é a prova. A prova é o acontecimento.

Segundo O Livro dos Espíritos, qual é a mãe de todos os males? Onde começa todos os males? No vício do egoísmo.

O seu sofrimento existe não porque você é egoísta, mas porque é viciado no egoísmo. Vocês são viciados em egoísmo.

O que quer dizer ser viciado em egoísmo? Que são dependentes de que aconteça o bem, para estar bem. São dependentes de que aconteça o que quer para não sofrer. Precisam que o mundo aconteça do jeito que querem. Dependem. Este é que é o problema. É por isso que sofrem.

Escancarando de vez, pergunto: sabem o que é sofrimento? É a síndrome de abstinência do seu egoísmo.

Cada vez que não acontece o que quer, sofre. Cada vez que o outro não age do jeito que você quer, sofre. Cada vez que o mundo não está do jeito que quer, você sofre. Cada vez que não respeitam as suas verdades, sofre. Tudo porque não tiveram a satisfação de ter o que queriam.

Sofrimento é a síndrome de abstinência do seu egoísmo.

O ser humano sofre, a mente humana sofre porque é viciada em egoísmo. Viciada no que é bom, no que faz bem. Por causa desse vício depende de que aquilo aconteça para poder estar bem, para não sofrer.

Foi o que já falei hoje: vocês se desapegam de algumas coisas, mas esse desapego é vivido pela sua mente como? Desapegar-se disso é bom, faz bem. Portanto, continuou no vício do egoísmo. Quando se desapagar de algo e por conta do seu desapego perder de alguma forma e não sofrer, realmente se libertou.

O problema é que vocês fazem toda a busca do desapego apegado ao que é bom para vocês, ao que lhe faz bem. A vida, como vimos, não pode ser vivida só no que é bom, só no que faz bem. Tem que acontecer o que não é bom para vocês. Mas, se dependem do que é bom, não vão conseguir passar por aquilo tranquilo, em paz.

Sofrimento - Textos

O sofrimento e os espíritos

Participante: o sofrimento é só meu?

O sofrimento é só seu. Quantas vezes vocês estão sofrendo, morrendo e o outro está lá e nem liga?

Participante: uma vez você deu um exemplo da pessoa que está passando fome e sofre porque está com fome e não tem dinheiro para comprar um prato de comida e o outro que está em um jatinho e não tem dinheiro para a gasolina. Disse que o sofrimento é o mesmo?

É o mesmo. Aquele que não tem a gasolina para botar no helicóptero dele sofre tanto quanto aquele que não tem um prato de comida para comer. O sofrimento é o mesmo. Porque?

O que é um sofrimento? Síndrome de abstinência do que você quer. Tanto querer a gasolina para o jatinho quanto querer um prato de comida é vivida como a mesma síndrome de abstinência. O sofrimento é igual porque as duas coisas são algo onde aconteceu o que o ser não quer.

Participante: não existe sofrimento bom ou ruim, não é?

Não existe. Nem sofrimento maior ou menor.

É preciso entenderem que esta coisa de preservar o certo, a regra, a lei, o tem que guardar neste lugar, não pode combinar amarelo com verde, porque é errado, nada mais é do que um instrumento gerado pela mente para você usar naquilo que é viciado. No que são viciados? No egoísmo, no que querem, no que acham bom.

O lugar certo de colocar um copo, não é o lugar certo de colocar o copo, mas algo que a sua mente cria para que você viva a sua dependência, para que viva o seu vício.

Participante: e de onde vem essa doença? É como uma doença do sistema?

Esse vício está presente no espírito livre da encarnação. Espíritos nos níveis que encarnam hoje no planeta Terra. Está presente também no ser humano, na mente. Ela tem este vício para que você veja o mal que causa ao aceitar o vício e abra mão dele, liberte-se do vício.

Participante: a gente não podia resolver isto fora?

Não. Não consegue nem aqui, que dirá fora. Fora dessa vida você vai estar entre iguais e vai viver a mesma vida daqui.

Eu já disse isso: se acham que vão sair daqui e entrar num coro e ficar cantando para Deus, isso é mentira. A convivência entre espíritos no nível de vocês é idêntica aqui ou fora da carne. É sempre um querendo que o outro seja e faça o que ele quer.

Participante: então, porque que a gente vem para cá se é igual? Porque a gente não resolve lá mesmo?

Porque aprender, já aprendeu. Agora está na hora de fazer a prova para ver se foi para escola só para comer pipoca. Por isso, vem para cá fazer a prova.

Participante: não é possível fazer a prova lá?

Não possível, porque lá, nesse momento, está tendo aula. Não se pode fazer a prova no mesmo lugar que está havendo aula.

Participante: estamos tendo aula aqui, agora.

Não.

Eu não estou ensinando nada; estou mostrando uma coisa. Lá é diferente. Como já disse, no mundo espiritual o ser fica assistindo vocês viverem, igual àquele programa de televisão que vocês ficam vendo as pessoas vivendo presas numa casa. Quando você que está aqui diz ‘eu vou ensinar para ela ser melhor’, eles dizem assim: ‘olha o que eles fazem, quando encarnar não vou fazer isso.’

Falei sobre extraterrestres em outra palestra. Disse que é preciso que vocês se aprimorem para recebê-los. Imagina uma coisa: vocês saindo daqui hoje com a cabeça viciada no prazer e no egoísmo, indo para uma terra onde se vive de uma forma completamente diferente. Quando chegar na casa do extraterrestre a primeira coisa que vai dizer é: ‘o copo está fora de lugar’, ‘que sujeira, ninguém varreu aqui hoje’, ‘aquela arrumação é cafona’. É a mesma coisa que fazem hoje quando vão na casa dos outros.

Participante: mas não é bem assim ...

É assim, sim.

Saiba de uma coisa: o primeiro passo para não fazer nada é dizer que não é assim. Você acabou de falar sobre o seu trabalho. Disse que lá existe um monte de briga e deixou bem claro que, para você, está tudo errado lá dentro.

Participante: é que a gente tem este conceito de que viver em briga não é normal.

Ah, você tem? Mas, será que ela tem? Será que o outro tem? Você não sabe ... Como quer viver na paz com os outros se não os respeita?

Segundo detalhe, a sua paz é a mesma para eles? Então, aceita a paz deles. Eles estão em paz brigando.

Você disse que é anormal viver brigando. Se falou isso, é porque acha errado brigar. Se vê erro, vai sofrer.

Participante: nós viemos aqui para provar, porque aqui existe o confronto ...

Lá em cima também existe.

Participante: e lá como se lida?

Aquele que já compreendeu o respeito pela opinião e vontade do outro, diz: ‘quer se ferrar o problema é seu.’

Cada um que fica observando o outro para saber se está certo ou se está errado, vai se ferrar, vai sofrer um dia. Não tem jeito de ficar observando e achando certos ou errados e sendo feliz. Todos que encontram certos ou errados vão sofrer. Todos que acham certos ou errados sofrem. Isso porque nunca o mundo vai estar totalmente dentro do seu certo.

Como não entrar em conflito? Dando ao outro o direito de ter o certo dele, sem que você queira impor o seu. Na hora que deixa-lo fazer o que quer e você fazer o que quer, que conflito pode haver?

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O sofrimento e os sentidos

Participante: se lá a gente está com a consciência mais ampliada e não tem as limitações dos sentidos como temos aqui, não ficaria mais fácil?

Deixe-me falar uma coisa com relação a sentidos.

Estou falando de sofrer, de sofrimento, não de dor. A dor é ligada aos sentidos, o sofrimento não.

Por exemplo: ‘estou com uma dor no fígado, quebrei um osso’. Isto é sentido, sensação, não emoção. Por isso não é sofrimento. Essa dor pode ser vivida em sofrimento ou não. Ela necessariamente não leva a um sofrer. Portanto, o sentido, qualquer um deles, pode ser mais uma prova, mas não pode automaticamente lhe fazer sofrer mais ou menos.

Outro exemplo: sentir frio. Isso é um sentido. Tem uns que sofrem com o frio e outros que não sofrem. É por isso que digo que o sentido não gera um sofrimento. O que determina é a forma como se vive o que é sentido.

Participante: a gente tem limitação na visão, tem diversas limitações. É destes sentidos que eu falo

Sim, concordo plenamente que você tem limitação na visão, na percepção, em tudo. Mas, o que leva ao sofrimento não está na limitação. Tê-la só vai ser problema quando quiser ver além do que vê.

Quem sabe que tem limitações deve viver dentro delas sem sofrer. Há cegos, por exemplo, que sofrem por não ter a visão enquanto outros não sofrem por isso. A limitação não lhe faz necessariamente sofrer, mas pode servir para gerar o sofrimento se você não aceitar sua limitação.

Portanto, tanto faz se você tem limitações ou não. Isso não tem problema.

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Mais sofredor

Chegamos agora no que já foi falado. Quanto mais verdades, regras, normas, lugares certos, verdades verdadeiras, tiver, o ser sofre. Porque? Porque possui mais dependências.

Se você acredita em dez coisas, tem dez motivos para sofrer. Acreditando em cem, tem cem motivos para sofrer. Crendo em mil, mil motivos para sofrer. Cada elemento desse mundo que você trata como certo, verdadeiro ou afirma que é obrigado a ser assim, é mais um motivo para você sofrer. Isso porque cada um desses elementos nada mais são do que instrumentos para o seu vício. Por isso, quanto mais elementos tiver, mais vai cobrar da vida

Sofre mais quem tem mais verdades, mais coisas certas, mais obrigações, já que se expõe mais à contrariedades. Não existem dois seres humanos iguais, cada um é único. Cada um tem suas verdades, suas vontades, suas obrigações. E ninguém está aí para satisfazer o outro, a não ser que a sua vontade seja satisfazê-lo. Nesse caso, se fizer o que o outro queria, não adiantou nada, porque a sua vontade de satisfazer virou vício. Quando não o satisfizer, sofre.

É o que acontece geralmente. Você luta pra satisfazer o outro e nunca consegue, porque outro está sempre exigindo que faça mais.

É assim que a vida acontece. É assim que vocês vão vivendo, interagindo e por isso passam a vida inteira sofrendo. Pior: não acordam para isso. Ao invés de assumirem o seu vício, ficam de olho no vício do outro.

Quem nunca me viu e está aqui pela primeira vez está vendo que eu fumo. Normalmente dessas pessoas vem sempre a pergunta: porque o senhor fuma? Costumo responder que, primeiro, eu não fumo: uso o cigarro. Em segundo lugar, que o vício do cigarro é uma coisa, mas o querer que o outro não fume também é um vício. Ou seja, aquele que coloca como condição para ser feliz o outro não fumar, sofre. E aquele que coloca como condição que tem que fumar, mesmo que o outro não queira, também sofre.

Sendo assim, qual é a saída? O fumante fumar sem críticas por parte de quem não fuma e o não fumante não fumar, sem críticas por parte do fumante. Esta é a única forma dos dois viverem em paz. É que sempre disse: respeitar o direito do outro ser, estar e fazer o que quiser, mesmo que o que ele faça, lhe fira.

Olha o vício no bom. Quando falei isso, a primeira coisa que me disseram foi: ‘e se o outro me desrespeitar?’ Disse: você tem que respeitar o direito do outro lhe desrespeitar.

Tem problema o outro lhe desrespeitar? Não. Achar que não deve ser desrespeitado não muda nada; só faz uma coisa: você sofrer.

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O que eu gosto e o que não gosto

Participante: ainda nesse sentido, um exemplo: eu gosto de azul. Se outra pessoa falar que isso não é azul, não vou sofrer. E se eu for na casa de alguém que é tudo cor de rosa, ok. Digo que ela tem o direito de achar que é rosa, mas eu escolho o azul. Não sofrer com o externo e eu ainda ter minha particularidade de quando quiser usar o azul, porque essa cor me faz sentir bem, mas eu não imponho nada. Tem algum problema?

Nenhum. Você não sofreu.

Você tem o direito de ser quem é e tem que respeitar o seu direito. Você tem todo o direito de ser quem quer, só não pode exigir que o outro seja o que você quer.

Participante: é que as vezes me dá a impressão que eu tenho que estar justamente no lugar que é o contrário do que eu gosto só para me colocar em prova.

Sim. É preciso estar em um lugar que é exatamente o contrário do que quer. Para que? Para aprender a respeitar o outro, para fazer o trabalho que precisa fazer, que é acabar com seu vício. Mas, quando isso acontecerá? Quando estiver lá. Não se preocupe que estará sempre no lugar que precisar estar. O problema não é estar aqui ou acolá, mas onde estiver e houver outro que acha certo algo diferente, precisar que ele siga o seu certo.

O vício é a dependência da vida, não só do outro. Ele pode ser nutrido pelo que o outro faz, mas pode ser também uma chuva que inunda sua casa, uma ação da natureza qualquer que contrarie o que você acha bom ou certo. O gatilho do vício não interessa; o importante é compreender que não pode exigir nada da vida. Quando exige algo dela, é você que vai sofrer.

Enquanto gostar da cor que gostar, quiser o que quiser e não exigir da vida que ela aconteça como quer, não vai sofrer. Ainda será um egoísta, mas não terá o vício no egoísmo.

Se eu colocar isto tudo em paz, eu vou estar em paz comigo mesmo, eu vou estar em paz com o mundo. Que maravilha! As centenas de contrariedades que você vive por dia e não vai viver mais. Olha a diferença.

Participante: como eu sei que resolvi aquela contrariedade ou só sabotei, fingi?

Quando você não exigir que a coisa seja do jeito que quer. Quando não sofrer

Participante: por exemplo, minha filha fez alguma coisa e na hora aquilo me causou uma contrariedade, no momento fiquei brava com aquilo.

Ficou brava, falou tudo que tinha que falar ... Tudo isso faz parte da vida. Agora, você não vai ficar se lamentando, sofrendo pelo que ela fez. Faz parte do teatro da vida você ficar brava na hora.

Participante: no exemplo, você gritou com uma pessoa, na hora nem se ligou, mas depois ficou se culpando. Nesse caso havia uma intencionalidade. No caso dela com a filha também, se depois ficar se culpando. Explica isso.

Você é dependente de não brigar com sua filha para ser feliz. Só que pode brigar quanto quiser. Da boca para fora. O que não pode é ficar dizendo: ‘minha filha não presta, não faz nada certo, está sempre errada, tenho que muda-la’. Tudo isto é um sofrimento.

O fato de se culpar é dizer: ‘eu sou mãe, não posso brigar, tenho que aceitar tudo que minha filha fizer’” Não, isso não é real. Mãe tem que fazer o que fizer, mas o filho também tem o direito de fazer o que quiser.

A linha é essa: ‘eu gosto do azul e estou em uma casa que é toda cor de rosa? Estou. Não tem jeito. Vim aqui, estou aqui, a casa é cor de rosa, a dona gosta de cor de rosa, mas eu vou continuar gostando do azul e dar a ela o direito de gostar de outra cor’.

Agora se chegar para a dona da casa e questionar porque ela gosta da cor de rosa, mostrou sua contrariedade.

Participante: no meu caso que não gosto de barulho, quando acontece penso que está tudo bem, tudo é Deus, respiro fundo... Só que uma vez você falou: vai lá e pede para baixar a música ..

Você pode falar o que quiser. Falar é da boca para fora. Agora, não pode deixar a música alta lhe fazer sofrer.

É o mesmo caso das cores. Estou falando em nem ver diferença de cores ou de volume de som. Cor, seja ela qual for, na verdade é apenas uma cor. Não existe nem cor de rosa nem azul. O que existe é uma cor. Por isso você teria que viver com todas as cores.

Quando aceita as outras cores, mesmo gostando de uma específica, não há problema nenhum. O problema é quando gosta de uma e não aceita a outra. Aí gera problema para si.

Participante: mas se você cultiva, dá preferência a uma? Por exemplo: tenho duas festas para ir, uma é cor de roas outra é azul. Se eu for na cor de rosa, está tudo bem, mas se for na azul, não estaria alimentando ainda mais esta minha zona de conforto? Ou isso é perigoso?

Primeiro que você não vai: é levado. Os atos acontecem, independente da sua ação. Para ser feliz, você tem que se portar na festa de rosa da mesma forma que se porta na azul. Só isso.

Só que se você gosta do azul, a vida acaba lhe levando para a festa cor de rosa. Não tem jeito. É a mesma coisa: você troca de marido, mas o outro é igualzinho ao anterior.

Todo sofrimento surge quando você não se adapta onde está, com o que está acontecendo. Quando está naquele lugar, vivendo aquilo, exigindo que fosse diferente do que é.

Sofrimento - Textos

Usar o ensinamento para manter o vício

Participante: tudo que você fala, sempre cai na mesma coisa: não julgar, respeitar...

Interessante, não é?

Deixe-me lhe perguntar: porque nunca tinha percebido isso? Você acabou de me dizer que tudo volta aos ensinamentos do não julgar, do arranque seu olho que lhe faz pecar, todos os ensinamentos dos mestres. Porque, apesar de contato com os ensinamentos dos mestres você nunca tinha percebido de que o culpado de seu sofrimento é você, porque é viciado no bom?

Porque vocês tratam o resultado dos ensinamentos dos mestres como bom. Por em prática o que Cristo ensinou é bom. Por isso usam o ensinamento para o bom e não para o bem. Quer um exemplo disso?

Você sabe que Cristo ensinou que não se deve julgar. A partir disso, qual é a primeira coisa que a mente faz com este ensinamento? Julga quem julga. Essa é a transformação do ensinamento para servir ao seu vício. Se Cristo disse para não julgar, quem é você para julgar quem está julgando?

Esse é o detalhe que vocês precisam entender. A vida humana, toda a lógica das mentes humanas, são montadas para alcançar o bom. O bom, não o bem.

Se você começou praticar um ensinamento e se esse ensinamento lhe faz viver o bom, começa a julgar quem não faz. Nesse momento, quebra o próprio ensinamento que diz que aprendeu.

Participante: que é o que a religião faz ...

Isso. Toda religião humana estabelece o que é bom e quer que você alcance o bom que ela estabelece. Ou seja, é egoísta.

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Exigir mudança dos filhos

Participante: o que eu percebo é que a gente vai bem lentamente neste aprendizado, não é?

Participante: eu já estou há anos no ensinamento e ainda não me desapeguei do filho, de família ...

O problema não é se desapegar do filho. Você pode continuar apegada no filho. O que precisa se desapegar é do filho bom.

O filho bom é aquele que faz o que você quer. Por isso, o desapego não é do filho, mas do que quer deles. ‘Eu queria que meu filho fosse mais atencioso’, mas ele não é. E agora: vai sentar e chorar cada vez que se relacionar com ele?

Você tem que aprender a viver com o filho desatencioso sem cobrar a atenção dele, porque ele é assim, não tem jeito. Seu filho é bagunceiro? É. Você não gosta do jeito que ele é. Gosta dele, mas não do jeito que ele é. Por isso sofre. Só que o sofrimento não tem nada a ver com a bagunça que ele faz, mas porque o bom para você é se ele não for bagunceiro. Como ele é, vive a síndrome do seu egoísmo.

Participante: e quando, por exemplo, as coisas que os filhos fazem atingem diretamente a vida dos pais. Como é que a gente lida com isso?

Atingiu? Faz parte do esquema da vida, faz parte do livro da vida de cada um, faz parte das provas. Ele não atinge a vida dos pais, os pais se deixam ser atingidos pela forma que ele é. Deixam ser atingidos porque eles querem que seja diferente.

Sofrimento - Textos

Tudo pode fazer sofrer

Eu estou dando corda porque tudo está envolvido na questão do bom, do que faz bem. Tudo. Todas as coisas do mundo são apresentadas e recebidas pela mente como bom ou mal. Todas as coisas do mundo.

Quer ver um grande exemplo? Comer sal faz mal?

Participante: não ...

Mas, tem gente que diz que é mal. Por causa disso quem não come sal, critica quem come, porque o bom para ela é comer sem sal. Para se justificar, diz que a ciência ensina isso.

A ciência é um elemento humano. Ela também trabalha para criar bons e maus para você ter a oportunidade de se libertar do seu egoísmo. Comer o que quer e dar ao outro o direito dele comer o que quiser, ao invés de ficar fazendo propaganda do que é bom para ser comido.

Eu já disse: comer só mato não é problema nenhum. O problema é quando você se diz vegetariano. Isso porque vai querer exigir que o outro pare de comer carne. Você criou uma condição. Por isso, se o outro continua comendo carne, você sofre. Coma seu mato a vontade, não tem problema nenhum. Cada um come o que quiser.

O problema é quando alguma coisa do mundo acaba se transformando em um elemento para você usar o seu vício. A exigência, a dependência de que a coisa esteja do jeito que quer.

Pior: a única vítima disso é você. Pode exigir de todo mundo o que você quiser, mas saiba que todos vão continuar agindo do jeito que querem e você vai continuar sofrendo.

Desde muito, desde sempre, disse que o ensinamento é para você usar em você. Se leu não julgue por qualquer motivo, nem mesmo quem julga. Se ama, não desame quem não ama.

Isto vale para todas as coisas. Preste bem atenção no que vou falar agora:

Nesse mundo não existe bom nem mal: trata-se apenas de uma posição que sua mente toma com relação a alguma coisa. Não importa o que seja. É sempre uma posição que sua mente tomou e que outras mentes podem tomar diferentes. É a cor dos olhos de cada um.

Na hora que entender isso e principalmente entender que esse seu bom é apenas um alimento para o seu egoísmo, pode ser que comece a se livrar da dependência daquilo que quer, aconteça

Na hora que você se libertar da dependência, acabou. Está calor aqui? Você queria estar dentro daquela piscina? Mas, não está. Está sentado aqui. Então, saiba que precisa viver o aqui e agora e se libertar de precisar estar dentro da piscina para se sentir bem. Acabou. O resto é historinha para boi dormir.

‘Tal alimento faz bem’, ‘Jesus fez aquilo’, ‘Buda fez aquilo outro’. ‘Que importa? Eu não sou Buda. Tenho que viver minha vida da melhor maneira possível’.

Da melhor maneira possível para si. Se você não viver a sua vida da melhor maneira para si mesmo, nunca vai ser feliz, nunca vai estar em paz. O problema é que vivem querendo satisfazer os outros ou cobrando que os outros lhes satisfaça. Por isto é que vivem sofrendo.