Como falei anteriormente, estou de meio que de molho. Não posso digitar os textos do EEU não por falta de equipamento, pois meu filho disponibilizou o computador dele, mas porque todo o original que preciso está parado dentro do HD da minha máquina. Mas, posso aproveitar este tempo e escrever sobre algumas coisinhas que vem me passando pela mente a algum tempo e que ainda não tinha escrito ou falado sobre elas por falta de oportunidade...
Então, vamos lá...
Antes de qualquer coisa, vou deixar claro: não estou falando o certo, não estou dizendo que sei tudo nem estou dizendo que quem age dentro da forma que vou estabelecer abaixo é errado ou que tem que se mudar. Estou apenas colocando no papel uma reflexão que tenho feito ultimamente. Reconheço que é apenas a minha opinião e que os seres humanos que agem da forma que descreverei abaixo não o fazem por maldade, estão errados ou podem fazer diferente, pois cada um é e tem que ser do jeito que é para servir de prova a um espírito...
Escrevo e ouço os ensinamentos do EEU diuturnamente há oito anos. Diariamente a minha rotina consiste em ouvir os arquivos de som das palestras, transcrevê-los para texto e depois colocá-los de forma compreensível para quem vai lê-lo, já que há falas que se mantidas em bruto não teriam sentido...
Nestes oito anos o ensinamento e a compreensão sobre o mesmo passaram por diversas fases. Desde o estudo do Evangelho de Tomé até as últimas palestras no Chat do EEU o tema abordado sempre foi o mesmo, mas o discurso e a compreensão sobre o que foi dito se alteraram significativamente.
É sobre isso que quero falar hoje aproveitando o meu “molho”...
Desde o início o ensinamento de Joaquim dividiu-se em três partes: o estudo de algum texto dito sagrado (ensinamento de um mestre), a aplicação prática deste e uma forma de agir onde aquele ensinamento fosse colocado em prática. Todos os textos do EEU, mesmo aqueles que não se originaram diretamente de um estudo de texto sagrado, tiveram estes elementos, pois por várias vezes Joaquim faz citações de textos de mestres em cada um deles.
Com isso, durante muito tempo a minha compreensão foi a seguinte: estamos aprendendo em profundidade como aplicar os ensinamentos dos mestres. Acontece que com a evolução do estudo do ego uma coisa ele deixou bem clara: o ser humano não pode fazer nada...
Ora, se eu, o ser humano, nada posso fazer, então para que ele fica falando que tenho que despossuir, que devo não criticar ou julgar semelhantes? Por que Joaquim insiste a tantos anos em ações humanas se nada posso fazer?
Foi uma época difícil de passar e que causou estragos na mente de muitos amigos. Muitas pessoas ficaram sem entender isso e acabaram não mais estando conosco fisicamente. Mas, apesar de assaltado pela mesma idéia, eu não podia sair, pois senão não existiria Joaquim e os ensinamentos teriam acabado em uma porta fechada...
Os estudos continuaram e este ano Joaquim falou o que para mim explicou tudo: “eu falo a espíritos através de egos”... Esta frase tão curta trouxe, enfim, o significado de tudo o que estava sendo realizado nestes anos todos.
Quem fala, diz alguma coisa para alguém com algum propósito. Sendo assim, ficou bem claro que um espírito amigo estava falando através de um ego (Joaquim) para outro espírito, que ouvia o que era dito também através de um ego, ou seja, dois espíritos estavam conversando através dos egos Joaquim e Firmino... A partir daí faltava apenas entender a motivação do que era dito...
Ora, se o ser humano não pode mudar-se e se o espírito não pratica os atos materiais que Joaquim cita durante as suas palestras, isso quer dizer que ele nunca falou com a intenção de que alguém praticasse o que ele ensinava... Então, qual a intenção dele?
Dando tratos à bola (na visão humana que acha que nós raciocinamos) cheguei a seguinte conclusão: ele quer alertar o espírito de alguma coisa... Esta é a intenção de Joaquim ao estudar a prática dos ensinamentos dos mestres no dia-a-dia do ser humano: alertar o espírito de alguma coisa referente à ação humana. Daí a frase: eu falo a espíritos através de egos...
A partir daí continuei desenvolvendo o raciocínio. O que ele quer alertar? O que Joaquim quer mostrar ao espírito com relação ao ser humano? Esta resposta foi fácil, pois muitas vezes ele falou disso e nós não conseguimos captar a mensagem, pois estávamos preocupados em nos defender ou em entender o que ele dizia: a diferença entre o discurso e as crenças e a prática nos acontecimentos da vida...
O Espírito da Verdade afirma que a mãe de todos os males é o egoísmo. Isso, para mim e para o EEU, quer dizer que o egoísmo está presente em todas as motivações com as quais o ser humano vivencia os acontecimentos.
Ser egoísta é querer para si mesmo. O ser humano vivencia todos os acontecimentos da sua existência querendo “ganhar” individualmente alguma coisa naquele momento. É como dizia o Gerson (jogador de futebol) numa propaganda do Rio de Janeiro nos anos setenta: “temos que levar vantagem em tudo, certo?”
Assim é o ser humano, mesmo que ele seja religioso, mesmo que ele diga que está vivendo para alcançar a elevação espiritual. Apesar do ensinamento de Cristo e Paulo falando do serviço ao próximo, o ser humano está sempre preocupado em ganhar alguma coisa – nem que seja um muito obrigado – ao servir o outro.
Isto é desta forma e não vai mudar. Tal motivação está intrínseca na mente humana e fomenta todos os pensamentos, mesmo que o ser humano em questão se dê conta disso. Por isso, há algum tempo, Joaquim o chamou de “conceito raiz”...
O espírito que vive ligado a um ego “percebe” apenas o que a mente humana diz. Ou seja, ele pensa o que o ser humano pensa das coisas... Por isso ele também não percebe a ação subterrânea do egoísmo criando pensamentos que dão valores às coisas do mundo. Por isso surge para o espírito e ele acha certo o pensamento: “nem um muito obrigado”...
É só depois dessa percepção que o espírito utiliza, então, o seu livre arbítrio. Ou seja, depois que a idéia humana lhe chega à mente, o ser universal reagirá a ela optando em permanecer ligado ao que lhe veio à mente e com isso vibrando na sensação que acompanha o pensamento ou libertando-se dela e vibrando o amor universal.
Claro que isso é apenas uma forma figurada para que possamos entender, mas descreve perfeitamente dentro dos ensinamentos dos mestres a ação do livre arbítrio do espírito. Descreve, ainda, o trabalho da reforma íntima necessária para se alcançar a elevação espiritual. Por isso foi assim que o EEU descreveu a atividade do espírito.
O egoísmo, que está presente nos pensamentos e sensações que chegam à mente primária do espírito, é contrário às leis universais que falam do nós, da convivência entre todos como um serviço ao Universo como um todo. Por isso, o espírito precisa desligar-se destas idéias, ou seja, não entendê-las como certas, como verdades...
Mas, como o espírito pode fazer isso se o que “chega” à sua mente primária é aquilo que a mente secundária (a humana) pensa das coisas? Como ele pode entender que deve desligar-se das idéias geradas pela personalidade humana se as verdades que ele vivencia são geradas por esta personalidade transitória? Levando-se à personalidade humana a Realidade, ou seja, mostrando a ela a presença do egoísmo...
Aí está a motivação de Joaquim – e, por conseguinte, do EEU – durante os seus estudos: utilizar a mente humana para mostrar ao espírito como o discurso é diferente da prática, pois a prática está fundamentada pelo egoísmo, pela vontade de levar vantagem em tudo...
Sempre foi essa a motivação de todo trabalho. Joaquim nunca esperou que eu, você ou qualquer ser humano, por exemplo parasse de criticar. Da mesma forma, como consciente da Realidade do ser universal, Joaquim sabia que o espírito não podia parar de julgar intervindo no mundo de idéias da personalidade humana. O que ele sempre buscou foi promover através do mundo da razão humana a compreensão da existência do egoísmo para que o espírito pudesse, então, não querer mais vibrar dentro do padrão sentimental proposto pela personalidade humana.
O que ele quis, em outras palavras e usando algo que sempre disse, foi mostrar a hipocrisia humana... Para isso mostrou que mesmo os ditos religiosos, ou seja, os seres humanos que afirmam buscar a Deus, utilizam os ensinamentos na hora que querem, no momento que aquilo lhes traz alguma vantagem..
Estudando os ensinamentos dos mestres, Joaquim criou para o espírito um padrão universalista; estudando as reações fundamentadas no egoísmo, como, por exemplo, aqueles que deixam a mão direita ver o que a esquerda está fazendo, o amigo espiritual através do ego Joaquim mostrou ao espírito que este padrão não deve ser.
Agora ficou bem claro para mim o que pretende o EEU. Não se trata de propor mudanças, seja neste ou em outros planos de existência, mas desvendar o interior de cada personalidade humana expondo o cancro do egoísmo, não como crítica ou acusação a ninguém, mas apenas para que o espírito possa, então, conhecer a motivação das ações e sensações da personalidade humana a que está ligado.
É a partir disso que vou aproveitar o meu “molho”...
Já que não posso digitar os textos dos estudos, pretendo aproveitar estes dias e, paulatinamente, ir escrevendo sobre o dia-a-dia de um ser humano e a sua motivação comparando-a com os ensinamentos do EEU e de todos os mestres. Aliás, como Joaquim faz sempre, não?
O que acham da idéia?
Antes de falarmos do dia-a-dia da vida dos seres humanos, preciso falar ainda de uma série de características que influenciam a formação das idéias humanas. Estas características foram ensinadas pelo EEU sob o título “As Quatro Âncoras”.
“Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes, quer dizer sem ciência. Deu a cada um determinada missão com o fim de esclarecê-los e fazê-los alcançar, progressivamente, a perfeição para o conhecimento da verdade e para aproximá-los Dele” (O Livro dos Espíritos – pergunta 115).
A encarnação é uma missão que Deus dá aos espíritos para esclarecê-los e fazê-los aproximar-se Dele. Podemos comparar o espírito no Universo como um filho que mora com os pais, mas que não se coaduna com a família que vive. É o filho que coabita o mesmo teto dos seus pais, mas não participa dos ideais familiares, achando que seus pais são caretas, que não sabem de nada...
O que faz com que o espírito não vivencie o mesmo que seus pais eu já falei: o egoísmo. No Universo o que predomina é o universalismo, ou seja, a perfeita comunhão entre todos. No entanto, alguns espíritos vivem o egoísmo, ou seja, estão mais preocupados consigo mesmo do que com a comunidade que vivem.
Joaquim ao falar da mente humana comparou-a a uma árvore, ou seja, disse que os desejos individualistas expressos pelos pensamentos (eu quero), marcas maior do egoísmo, são frutos da ação de outro elemento: as paixões. Paixão é aquilo pelo qual o ser humano é apaixonado, ou seja, gosta, diz que é seu ou afirma saber.
Estes elementos formam a árvore constitutiva dos pensamentos. Claro que eles são alimentados pelo egoísmo, mas, entre este sentimento e as paixões, o EEU ensina que existem elos de ligação que se traduzem em características implícitas em todos os pensamentos. Essas características foram chamadas de “As Quatro Âncoras”.
Elas foram chamadas assim porque, como âncoras, aprisionam o pensamento ao egoísmo. Por causa da presença destas características, jamais o egoísmo estará ausente dos pensamentos humanos, mesmo que de forma não aparente. Além disso, o nome se deve porque, assim como âncora é formada de dois garfos, as características do pensamento existem em pares.
Vamos a elas...
A primeira característica implícita em todos os pensamentos é a vontade de ganhar sempre. Todo pensamento humano, mesmo que aparentemente não demonstre, traz embutido em si um desejo de ganhar, de levar vantagem sobre os outros.
Sei que muitos afirmam que não possuem esta característica em seus pensamentos, mas ela está sempre presente. Ela, assim como as demais, são como raízes que arrancam do solo (egoísmo) os nutrientes que manterão viva a árvore da razão humana. Se elas pudessem ser extirpadas, o pensamento com certeza não seria o mesmo.
Digo se pudessem, porque não podem. Se a encarnação tem como objetivo aproximar o espírito de Deus, o egoísmo tem que estar presente na ação para que o espírito, então, possa vencê-lo e provar que se coaduna com sua família universal.
Voltando à vontade de ganhar, como disse, ela está presente mesmo quando não se imagina. Vou dar alguns exemplos para observamos a sua presença onde parece que ela não existe.
O primeiro exemplo: a caridade material. Hoje são milhares de pessoas em todo o mundo que fazem da prática da doação de elementos materiais aos necessitados uma atividade constante. A chamada solidariedade...
À primeira vista os pensamentos que justificam a participação de seres humanos neste movimento parece não abrigar nenhuma vontade de vencer, mas isso aparente.
Alguns praticam a solidariedade por motivos religiosos, outros praticam porque acham que devem ajudar os carentes, outros, ainda, justificam seus pensamentos por amor ao próximo. Aparentemente trata-se de motivos que em nada versam sobre a vontade de vencer, mas isso é engano...
Quem pratica a caridade por motivos religiosos espera ver seus esforços observados pela entidade superior do Universo e ganhar como recompensa méritos para outra vida; quem pratica por solidariedade espera que a ajuda surja o seu efeito, ou seja, que ele veja o outro sentir-se melhor; quem faz por amor espera ganhar a sensação do dever cumprido. Não importa o que se ganhe, desde que alguma coisa seja recebida em troca: esta é a característica do pensamento humano.
Lembro-me de uma conversa que Joaquim teve com uma pessoa. Eles estavam falando de caridade material e Joaquim disse que ela só seria reconhecida como doação quando a pessoa a praticasse sem nenhuma motivação específica. Ou seja, quando esta pessoa simplesmente desse, sem planejar dar ou quere dar...
Outro exemplo clássico foi o de uma amiga que dizia que por amor ela brigava com outro amigo para que ele parasse de fumar. Ela deixou bem claro para Joaquim: eu não ganho nada com isso, faço apenas por amor. Pesquisando junto a ela sobre esta ação, em determinado momento nossa amiga respondeu que fazia isso porque não queria que o amigo morresse. Joaquim, então, disse: qual o problema dele morrer? Ela respondeu: eu vou ficar com saudades...
Aí está a ação da âncora vontade de ganhar. O que aparentemente se demonstrava num ato amoroso sem qualquer ação egoísta no final se transforma numa peça de egoísmo, pois ela estava preocupada consigo mesmo, ou seja, queria ganhar a presença dele...
Mas, como disse, as âncoras estão sempre presentes em dupla. Se o pensamento humano sempre esconde uma vontade de ganhar, ele também possui a característica de que não querer perder.
Esta característica é mais fácil de se ver. Ninguém quer perder nada, nem em campeonato de cuspe à distância, não é mesmo?
Lembro-me de uma vez que minha esposa acalentou a idéia de que tinha que ajudar uma família que estava morando literalmente em baixo de uma ponte onde passávamos. Um dia, fomos de manhã ao mercado, fizemos umas compras e fomos para a ponte para dar os alimentos à família. Quando chegamos lá, eles já haviam se mudado...
Esta ação deles a fez sofrer, pois a vontade de não querer perder agiu forte dentro dela e justificou o sofrimento. Lembro, ainda, de um chefe que tive que quando eu levava um documento para ele conferir, mesmo que não houvesse erro algum, ao final ele fazia um ponto com a caneta para mostrar que dava a última palavra.
Enfim, nem ele nem minha mulher nem os que praticam a solidariedade estão “errados”. Eles são assim e tem este tipo de pensamento porque são apenas personalidades humanas que estão servindo a um espírito na sua aproximação com a família que ele tem renegado há milênios...
Outra característica presente em todos os pensamentos humanos é a vontade de sentir prazer.
O prazer é uma sensação (emoção) gerada pela personalidade humana quando a vida (os acontecimentos do mundo) está de acordo com os desejos do ser humano. Quando o que acontece é desejado, a personalidade humana cria a sensação de prazer; quando não, a de desprazer ou sofrimento...
O prazer, como acredito todos sabem, é inebriante. Trata-se de uma sensação que causa uma euforia que se traduz como bem-estar. Mas, espiritualmente falando, ele não é assim tão positivo.
Cristo nos falou da existência de um bem celeste e outro material. Como no céu não existem elementos materiais que possamos chamar de bem, temos que imaginar que o mestre se referia ao mundo sentimental. Ou seja, ele dizia que havia um sentimento que pertence ao mundo dos espíritos e outro que pertence ao mundo dos homens. Este último é o prazer...
O prazer não pode ser considerado um bem celeste porque para existir ele depende do egoísmo. Só tem prazer quem é egoísta. Isso porque se o prazer depende do atendimento de desejos e estes dependem da existência de paixões e elas são o fruto da ação do egoísmo, só quem quer para si, quem quer ganhar alguma coisa tem prazer.
Não amealhe bens na Terra, mas sim no céu...
Eis aí um recado de Cristo que cria um parâmetro para o espírito poder observar em que se fundamenta a razão humana que lhe chega à mente primária. Serve como um balizamento para que o espírito compreenda que quem quer se ajustar no seu próprio meio familiar não deve vivenciar esta sensação.
Apesar deste mesmo recado estar presente na cultura humana, a personalidade humana não consegue se desligar desta busca do prazer. Tenho observado, por exemplo, as chamadas do Padre Marcelo para as missas radiofônicas. Diariamente ele conclama o povo a juntar-se a ele na santa missa com um objetivo diferente: orar pela saúde, pelo emprego, pela família. Mas, isso não é busca do prazer?
Quem precisa orar pela saúde é porque tem o desejo de ser saudável; quem precisa orar pelo emprego é porque quer estar empregado; quem precisa orar pela família é porque quer ter paz no seu âmbito familiar. Ou seja, quem precisa orar a Deus pedindo alguma coisa é porque está em busca do prazer, do bem terreno que o mestre dos cristãos disse que não deve ser buscado.
Incongruente, não? Não, perfeitamente lógico se entendemos a vida como uma encarnação do espírito. O mestre afirma que não deve se amealhar bens na Terra, o representante de Cristo conclama o povo a buscá-lo e os fiéis aceitam esta busca como real. Só assim o espírito pode verificar a hipocrisia da mente humana e abandonar suas idéias convivendo, então, em uníssono com sua família espiritual.
Por isso disse antes: não há errado, não há acusações. Estas reflexões não objetivam criticar ninguém, mas apenas mostrar a realidade humana sob outro ponto de vista: da ação do instrumento para ajudar o espírito a aproximar-se de Deus...
Se a mente humana não fosse aprisionada à vontade de vencer e à busca do prazer, mesmo depois de orientadas a não fazê-lo, o espírito não poderia observar como o discurso é diferente da prática e continuaria aprisionado às idéias humanas. Com isso, continuaria a ser um filho rebelde que vive com os pais, mas em constante briga...
O outro lado da busca do prazer é o medo do desprazer ou sofrimento. Com relação a esta característica, acho que nem precisamos nos alongar mais, pois todos somos mentes humanas e sabemos do medo que temos de sofrer.
Mais uma âncora, mais uma característica do pensamento humano: a busca constante da fama...
Quando o EEU ensina esta âncora ele não está se referindo à fama como conhecida entre os humanos. Não estamos falando aqui de um desejo de ser capa de revista, de ser apontado na rua, nem de ser apontado como um sábio, mas sim do simples reconhecimento suas ações. Ou seja, de esperar ouvir pelo menos um muito obrigado pelo que fez...
Nenhum ser humano faz nada sem esperar em troca o reconhecimento pelo que fez. Nenhum ser humano aceita o anonimato ou o crédito a outro pelo que fez. Sempre o pensamento humano estará esperando ser reconhecido como agente daquela ação. Isso é a âncora da fama...
Mas, num ambiente familiar não há fama individual. As conquistas da família não são reconhecidas como fruto da ação de apenas um, mas da família como um todo.
O espírito que vive na casa dos pais, ou seja, pertence a uma família universal precisa compreender isso. Por isso Cristo ensina que toda glória deve ser dada a Deus e não individualmente a alguém.
Para poder viver nesta família como membro que contribui para ela, o espírito precisa vivenciar a ação do nós. No Universo todos levam a fama pela realização de qualquer coisa e o espírito que ainda quer ser reconhecido individualmente é reconhecido como um filho rebelde...
Isso o espírito sabe por causa dos ensinamentos dos mestres, que também são conhecidos dos humanos: a tão falada humildade. Ser humilde não se rebaixar, mas não buscar louros individuais. Sabendo que deveria ser humilde para seguir os preceitos em que diz acreditar, mas buscando sempre ser reconhecido individualmente, a personalidade humana, então, ajuda o espírito a virar-se para o seu seio familiar e vivenciar a sua existência eterna de acordo com os padrões universais.
A outra perna da âncora reconhecimento diz respeito ao medo da infâmia...
Que medo os seres humanos tem de serem difamados, não? Por quê? Por que este medo?
Se alguém fala alguma coisa mal de você, qual o problema? Você é o que os outros dizem que é? Sendo, ninguém falou mal de você, pois você é realmente aquilo. Não sendo, qual o problema dos outros falarem: você não é...
Na verdade o que importa para a personalidade humana não é o fato dos outros falarem nem muito menos o que eles dizem, mas o medo de ser difamado... É esta perna da âncora que está sempre por trás dos pensamentos que denotam medo do que os outros dizem sobre ele...
O medo da infâmia é o resultado direto da busca constante da fama. A personalidade humana não aceita que ninguém se contraponha ao que ele sabe, gosta ou quer porque tem medo de perder o reconhecimento dos demais. Esta busca pelo reconhecimento dos demais seres humanos denota a falta de fé...
Se Deus é por nós, quem pode ser contra...
A fé é a confiança e a entrega absoluta ao Universo, à sua família. Isso todos os mestres ensinaram e, por isso deveria ser um elemento formador de pensamentos da personalidade humana. O espírito sabe disso e quando observa que apesar de concitado a manter a fé apenas no Universo o ser humano ainda vibra com o medo da infâmia pode, então, realizar o trabalho da reforma íntima, aproximando-se assim, do seu núcleo familiar original: o mundo espiritual em que vive...
Como decorrência natural da busca da fama, surge a última âncora. A sua primeira perna diz que todo pensamento humano busca sempre o elogio...
Novamente não estou falando aqui no elogio rasgado, descarado ou daquele que é proferido publicamente. Estou falando apenas na concordância, no outro dizer que o ser humano está certo. Toda personalidade humana tem seus pensamentos criados na perspectiva de que os outros afirmem que ela está certa, que ela sabe das coisas...
Esta é uma prática comum entre as personalidades humanas, mas quem pode estar certo sempre? São tantas as verdades deste mundo, são tantas as perspectivas com que se pode ver algum acontecimento que é impossível se estar certo o tempo todo.
Além do mais, as próprias ciências humanas, ao descobrirem constantes novidades que alteram as verdades, deveriam servir ao homem como elemento comprovador de ninguém sabe tudo o que pode ser sabido. Mas, a personalidade humana continua vivendo esperando estar sempre “certo”.
Outra coisa que pode comprovar que o ser humano não pode estar sempre certo: suas verdades são instáveis. Quantas vezes alguém não mudou de opinião a respeito de algum assunto; quantas vezes novas descobertas, até individuais, não lançaram nova luz sobre verdades anteriores?
É, mesmo esquecendo-nos de que estamos falando de espírito e de Universo devíamos entender que o que sabemos agora é apenas uma opinião que certamente não durará eternamente. Mas, o ser humano permanece firme no propósito de estar certo sempre e exige o reconhecimento disso por parte dos outros.
Esta forma de ser do pensamento humano ajuda o espírito a entender o quanto a razão humana é hipócrita. Mesmo sabendo que sua verdade é apenas relativa, ou seja, serve apenas para ele e assim mesmo durante certo período de tempo, e tendo a notícia que os mestres trouxeram onde se afirma que Deus, o Ser Superior do Universo, é o único que sabe e todos os outros possuem apenas opiniões, o ser humano continua tendo pensamentos que se fundamentam na vontade de ser elogiados.
É por isso que o EEU ensina as “Quatro Âncoras”. Ao fazê-lo, Joaquim não espera que o ser humano deixe de querer ganhar, pare de buscar o prazer e a fama através do elogio, mas, utilizando do ego para alcançar o espírito, Joaquim quer mostrar a esse a hipocrisia humana para auxiliá-lo no trabalho da reforma íntima para que ele possa, então, coadunar-se com sua família espiritual, ou seja, aproximar-se de Deus.
A outra perna desta âncora, claro, é o medo da crítica.
Ora, errar é humano, nós mesmos sabendo. Além do mais, a crítica nos ajuda a nos melhorarmos. Não é assim que pensamos? Então, por que o medo da crítica.
Porque ela traz a infâmia que aparentemente nos faz perder e por isso sofremos. As quatro âncoras se interligam e por isso o EEU afirma que elas estão presentes em todos os pensamentos humanos.
As características que enumerei aqui estão presentes em qualquer pensamento, desde o mais banal até o mais complexo, que o ser humano realiza. Elas são a ação do egoísmo sempre presente na mente humana e não podem ser alteradas ou desaparecerem. Elas constituem o fio da meada, ou seja, o instrumento que criará todas as realidades da existência humana.
A mente humana precisa ser do jeito que é, ou seja, precisa formar pensamentos de cunho egoístas, preso a estas quatro características gerando, assim, paixões que dão origem a desejos, mesmo que ela diga que quer aproximar-se de Deus, para que o espírito possa julgá-las à luz da sua Realidade universal e com isso promover a reforma íntima.
Por isso, apesar do que disse parecer uma ode de ataque ao ser humano, é um ato de louvor. O ser humano não pode mudar-se e nem é errado por possuir em seus pensamentos esta características, mas sim para que exerça a sua função no Universo...
Sri Krishna, o mestre dos hindus, afirma que tudo que vem à mente humana é maya, ou seja, ilusão. O mundo de maya é o mundo ilusório onde vivem os seres humanos; um mundo fictício onde idéias humanas existem.
Para ilustrar a um discípulo que lhe perguntava sobre o que era o mundo de maya, Krishna narra a seguinte história. Conta ele que no mundo Real caminhava ao lado de um discípulo quando disse a esse: estou com sede. O discípulo querendo servir ao mestre corre para apanhar água.
Chegando às margens de um rio o discípulo vê do outro lado uma bela jovem. Encanta-se e enamora-se por ela. Larga tudo o que está fazendo e atravessa o rio em direção a aldeia onde aquela jovem morava.
Ao chegar lá procura o pai da jovem e fala de suas pretensões com relação a ela. O homem cede e as núpcias são marcadas e se concretizam depois de decorridos alguns dias. Habitando, então, a mesma casa do pai da jovem, o discípulo passa a trabalhar nas plantações junto com os demais membros da família.
Depois de algumas colheitas a grande notícia: a jovem está grávida. Nasce o primeiro rebento: um homem. A felicidade é geral e a vida continua com o discípulo trabalhando a terra com os familiares da jovem e vivendo seu romance e o filho, que era o seu grande orgulho.
Passado mais algum tempo e novamente outra grande notícia acontece. A jovem grávida novamente dá a luz mais um filho saudável e belo. O discípulo não se contém de alegria e assim os anos passam...
Um belo dia, quando os garotos já estavam grandes, começa uma chuva implacável. O rio, antes apenas um riacho, torna-se caudaloso repentinamente. Pegos de surpresa tanto a jovem quanto os dois filhos do discípulo são arrastados pela correnteza. Apesar de todo esforço do marido e pai, ele não consegue salvar a vida dos seus.
Sentado desconsolado à margem do rio o discípulo sofre a sua dor quando ouve uma voz que lhe diz: continuo com sede esperando a minha água...
Depois da história Sri Krishna ensina então o que é o poder de maya. A Realidade da existência do discípulo jamais foi alterada. Nela ele foi até a beira do rio buscar água para o mestre, mas o poder inescrutável de maya gerou toda esta história, ou seja, ela aconteceu apenas na mente dele.
Apesar de toda sensação de que aqueles acontecimentos fossem reais, o discípulo jamais havia conhecido uma jovem, se casado, trabalhado a terra, tido filhos e nem os tinha visto perecer. Tais fatos nunca aconteceram, mas existiram apenas na imaginação do discípulo.
Imaginação: eis aí a realidade da história que afirmamos ter acontecido.
Krishna afirma: o Real nunca deixou de existir e o irreal jamais existiu. Mas, o que é Real neste Universo? Segundo o Espírito da Verdade na Realidade existem apenas o espírito e a matéria universal, o que foi chamado de fluído cósmico universal, e acima de tudo Deus. Portanto, tudo que é Real precisa ter acontecido com estes elementos.
A matéria, ainda segundo o Espírito da Verdade, não age. Segundo O Livro dos Espíritos a matéria universal é apenas o laço que retém o espírito; é o instrumento de que ele se serve e, ao mesmo tempo, sobre o qual exerce a sua ação. Sendo assim a Realidade só pode ser formada pela ação do espírito sobre a matéria e não ao contrário.
O que é o espírito? Segundo a mesma fonte, para nós humanos é nada... O espírito é algo que não pode ser percebido ou compreendido pela mente humana.
Ora, se não conseguimos nem saber o que é o espírito, como podemos saber qual a sua ação? Como podemos compreender o que é Real se a Realidade é apenas a ação do espírito sobre a matéria?
A partir disso pergunto: o que é Real? Para nós humanos nada. Mas, e isso tudo que vivemos como realidade? São ilusões criadas pelo poder inescrutável de maya na mente primária do espírito. Nada do que chamamos de real está acontecendo a não ser na imaginação do espírito...
Isso é verdade para o momento atual, mas sempre foi verdade, pois se trata de uma Verdade Absoluta. Todas as realidades vivenciadas por um ser humano são forjadas pelo poder inescrutável de maya apenas na mente de uma personalidade humana como foram aquelas da história do discípulo e de Krishna.
Face tudo isso pergunto: e a história da humanidade? E os acontecimentos que estão nos livros e que, aparentemente são recontados há milênios? Fazem parte da ilusão de agora...
A cada momento o poder de maya cria tudo o que compõem a existência do ser humano, inclusive a memória. É por isso que dizemos que possuímos memória seletiva: nos lembramos do que queremos nos lembrar e esquecemos do que queremos esquecer...
O poder de maya cria a cada momento as lembranças que precisam existir para poder dar lógica aos pensamentos de agora. É por isso que o ser humano, no momento que está frente a alguém, se lembra, se isso for necessário para dar lógica a algum pensamento, do que esta pessoa lhe fez, mas não se lembra que quem descobriu o Brasil foi Pedro Álvares Cabral.
A memória, na verdade, não é o arquivo de tudo que aconteceu, mas apenas idéias que imaginam acontecimentos para justificar a lógica do pensamento atual. Por isso para justificar uma desconfiança a esposa se lembra sempre do que marido lhe fez de mal, mas nunca se lembra do que ele já fez de bem...
Por isso afirmo: a história é alguma coisa que lhe colocam na cabeça neste momento...
Não estou me referindo a apenas fatos individuais, ou seja, da sua história, mas também à história universal, aos acontecimentos históricos da humanidade. Não importa o que os livros dizem, aqueles acontecimentos estão acontecendo agora para o ser humano que pensa neles...
Apenas um detalhe: não estou dizendo que eles não aconteceram. Podem até ter acontecido, ou seja, aquela realidade ilusória pode ter acontecido para algumas personalidades humanas nas mentes de espíritos, mas isso não quer dizer que a sua lembrança de agora afirme definitivamente que aconteceu.
A memória histórica não se prende a verdades ou realidades que tenham acontecido em mentes de outros seres humanos. Mesmo que um determinado fato não tenha acontecido ele pode ser criado como memória se isso for necessário para tornar lógico um pensamento de agora.
Quem nunca se lembrou de um acontecimento onde outro participasse e ao comentar com este ele diga que nunca viveu aquilo, que é coisa da sua cabeça? Quem nunca se lembrou de algum momento e ao comentar com outro envolvido nele escutar que estamos loucos, que aquilo não aconteceu daquele jeito?
A memória é individual. Cada um se lembra do que precisa lembrar e se recorda do jeito que precisa recordar para que os pensamentos de agora tenham lógica e com isso levem o espírito a se prender ao egoísmo que está na formação mental.
O que estou querendo dizer com isso? Que o Brasil nunca foi descoberto; que não tivemos império e nem a escravatura; que depois não veio a democracia que trouxe a figura dos presidentes. Tudo isso é história, é algo que está sendo criado na sua memória neste instante para dar lógica ao que está sendo pensado. Para que? Para o espírito não acreditar que deve libertar-se do ego...
“Mas, eu sou velho, já vi diversos presidentes e os nomes deles estão na minha memória”. Estão? Digamos que por doença ou pancada, você perdesse a memória. Eles continuariam lá? Você continuaria acreditando na existência deles? Não, se a criação do momento não incluir a idéia da existência da coisa, a memória jamais dará por falta destas informações.
“Mas, existem documentos, fotos, filmes, que comprovam a existência de alguns acontecimentos e da participação de seres humanos neles”. Está certo: este é um bom pensamento...
Mas o que são os documentos, os livros, as fotos e os filmes senão criações de maya que formam o mundo irreal? Eles são como a choupana, as plantações e o rio da ilusão do discípulo de Krishna: algo criado pelo poder inescrutável de maya enquanto na Realidade o ser estava apenas buscando água para o mestre.
A história, seja universal ou individual, é apenas uma criação do poder inescrutável de maya para dar lógica a pensamentos da personalidade humana que ao chegarem à mente primária do espírito constitui-se no instrumento para a sua reforma íntima. Isso é o que ensina o EEU. Mas, por que ele ensina isso?
Será que Joaquim ao ensinar isso esperava que o ser humano fosse descrer dos acontecimentos históricos? Será que ele esperava que a personalidade humana fosse capaz de negar a veracidade dos acontecimentos que são colocados na sua memória? Claro que não...
Este ensinamento não se dirige a seres humanos, mas sim a espíritos. Também não têm como finalidade fazer com que o espírito altere a história ou compreenda que os acontecimentos dela são ilusões, porque ele não pode agir sobre o poder de maya. Por isso Krishna diz que este poder é inescrutável...
O que o EEU quer é que o espírito receba informações através do ego que o leve a entender que os pensamentos formados pelo poder de maya que o estão bombardeando neste momento não podem ser considerados como certos ou bons, para que o ser universal não vibre em uníssono com a sensação que a personalidade humana cria...
Quantas atrocidades já não foram cometidas e consideras certas e boas usando para isso a memória de outros acontecimentos? O caso mais recente que tivemos foi a guerra entre os EUA e o Iraque e o Afeganistão. A retaliação a estes povos foi considerada como justa por causa da memória dos acontecimentos de 11 de setembro...
Não estou aqui dizendo que esta guerra não deveria ter acontecido. Se ela aconteceu é porque fazia parte do conjunto de percepções de personalidades humanas que os espíritos encarnados no planeta Terra precisavam ter. O que estou querendo dizer é que os espíritos não devem acreditar na motivação que as personalidades humanas que dirigem ou defendem esta guerra criam, porque estas motivações se fundamentam numa memória de algo que não existiu.
O espírito que acredita nas motivações fundamentadas em acontecimentos históricos dá como certa a prática daquilo que se está praticando e com isso vibra (sente) de acordo com a sensação gerada pela personalidade humana...
A memória não existe: é algo que põe na sua cabeça para justificar a busca do ganhar que leve o ser humano ao prazer e a fama através do elogio... Sendo assim, a história também não existe...
A mensagem mais forte que o Espiritualismo Ecumênico Universal trouxe foi a de que o ser humano nada pode fazer, ser ou estar por vontade própria. Apesar disso, o que mais marcou todos os trabalhos de Joaquim foram as perguntas: o que eu faço; o que devo fazer; como devo ser? Refletindo sobre isso me veio à seguinte imagem à mente...
No estudo do ego (Conhece a ti mesmo) Joaquim diz no início: para poder se compreender o ego (ser humano) é preciso assumir uma dupla personalidade. Nós somos seres com duplas personalidades, ou seja, somos ao mesmo tempo humanos (eu humano) e espirituais (eu espírito). Enquanto humanos não temos direito a ser, estar ou fazer nada, pois só o espírito possui estas propriedades...
A partir daí me veio à seguinte figura à mente...
Há mais de trinta anos, no Rio de Janeiro, um amigo meu se casou. Até aí nada demais, mas o inusitado do caso e que serve como figura para o que Joaquim ensinou, é que a noiva não compareceu ao casamento, mas se fez representar por uma amiga munida de uma procuração para tanto. A noiva verdadeira morava nos Estados Unidos e não poderia estar presente à cerimônia...
Lembrando deste fato, a minha compreensão sobre a dupla personalidade se ampliou...
A noiva e a procuradora formam duas personalidades distintas, assim como o ego e o espírito são duas individualidades que vivenciam um único acontecimento: o casamento.
O espírito é a noiva que durante aquilo que chamamos de encarnação se faz representar por um procurador: o ser humano.
Este tem procuração para representar a noiva durante aquele espaço da existência dela, mas não tem o direito de ser, estar ou fazer nada com relação à vida marital.
A procuradora vive o momento do casamento, mas não pode participar da vida a dois. Não pode exercer nenhuma atividade relacionada à vida conjugal.
Da mesma forma, a procuradora não pode gozar os benefícios do casamento...
Este é o ser humano. Ele é um procurador do espírito, porque o representa durante a encarnação, mas isso não quer dizer que ele possa agir durante este acontecimento da existência do ser universal.
Ele, como representante legal estará presente à cerimônia, mas mesmo durante ela quando se expressar, dizendo o sim, por exemplo, não estará expressando nem fazendo algo próprio, mas apenas manifestando a vontade da verdadeira noiva...
Da mesma forma, enquanto estiver vivendo a cerimônia matrimonial, ele pode até pensar que está vivendo a sua vida, mas naquele exato momento ele não é ele, mas sim a noiva...
Concluindo, o ser humano não pode fazer, estar ou ser nada porque tudo o que ele fizer referente ao casamento nada mais será do que uma expressão da vontade da noiva...
“Coração,
grande órgão propulsor
que bombeia o sangue venoso e arterial”.
Os versos acima de uma música de Noel Rosa dão bem a definição científica do coração, mas além desta existe ainda a visão filosófica sobre o coração. Desde a antiguidade a filosofia trata este órgão do corpo físico como a fonte do sentimento. Daí surgiram as expressões amar de coração, o que os olhos não vêem o coração não sente, etc.
Quando Joaquim, a determinado momento dos estudos do Espiritualismo Ecumênico Universal, falou que a opção que deve ser exercida pelo livre arbítrio do ser manifesta-se no coração, foi exatamente a esta visão filosófica do órgão humano: o sentir. Mas, o que ele quis dizer realmente?
Nosso amigo espiritual sempre deixou bem claro que existem dois mundos: o real e o ilusório. O primeiro é o mundo dos espíritos, o segundo o dos homens. Este último mundo, ainda segundo Joaquim, é aquele que se desenrola na razão humana, ou seja, aquele que é consciente pelo ser humano, enquanto que o primeiro é totalmente inconsciente ao instrumento carmático do espírito. Juntando as duas informações temos, então, a diferença entre sentimento e sensação, entre razão e coração.
Sensação ou emoção são os sentimentos que passam pela razão. Ou seja, são os sentimentos que são fundamentados por lógicas racionais. Por exemplo: “amo porque”, “tenho raiva quando”, “estarei feliz se isso acontecer”...
Além disso, sensações são aquela que são reconhecidas pela mente humana, ou seja, que se tem consciência de estar sentindo. Exemplo: “eu não sei por que, mas gosto de tal pessoa”. Mesmo que não haja um motivo aparente para a existência daquela sensação, o simples fato de se saber o que está sentindo já denota a presença de uma sensação e não de um sentimento.
A emoção, portanto, pertence ao mundo dos humanos, pois é conhecida e justificada pela mente humana. Como disse Joaquim, é humano tudo aquilo que lhe é conhecido. Já o sentimento pertence ao mundo dos espíritos e, por isso, não pode ser detectado pelo ser humano.
O amigo espiritual nos ensinou: o que não lhe é consciente não existe, pois não se tem a consciência de existir. Se tudo o que é conhecido são sensações, o sentimento é espiritual. Sendo assim, a escolha dos sentimentos não pertence às ações do ser humano, mas somente do espírito e a personalidade transitória não toma conhecimento dela...Então, porque Joaquim nos falou que devemos escolher com o coração?
“Eu falo a espíritos através de egos”...
Na verdade o que Joaquim estava querendo era mandar um recado ao espírito: você pode escolher sentir o que quiser, apesar da razão humana estar dizendo que você deve sentir...
Quando o amigo espiritual utilizava a expressão escolher de coração estava dizendo ao espírito que ele tinha o livre arbítrio sentimental. Estava também dizendo ao ser humano que ele nada pode fazer neste aspecto.
Se o coração vibra com os sentimentos e se estes não podem ser conhecidos pela razão, como pode o ser humano interferir ou agir nesta questão? Como pode o ser humano escolher o que sentir se para tanto ele precisará saber o que está escolhendo e com isso estará apenas trabalhando com sensações ou emoções?
Portanto, a questão da livre opção, segundo o EEU, trata-se apenas de uma ação espiritual. Nunca esta doutrina quis dizer que o ser humano poderia escolher o que vivenciar sentimentalmente.
A resposta de um amigo foi muito boa e contém dúvidas que assolam muitos dos que entram em contato com os ensinamentos do EEU. Por isso, se me permite, vou fazer o que tenho feito recentemente: refletir sobre os assuntos à luz dos ensinamentos nos trazidos por Joaquim...
No entanto, ao fazer isso, me permita não seguir exatamente a ordem de suas colocações, sem, no entanto, mudar o que você disse. Alterando apenas a ordem das suas palavras acredito que fique mais fácil lhe responder...
“acho que esses ensinamentos passados por eles (mestres) deviam ser um pouco mais organizados e direcionados com um propósito único”.
Foi só muito recentemente que Joaquim veio nos falar do propósito de seus ensinamentos que acredito seja também de todos os mestres: levar informações ao espírito através do ego. Como Joaquim falou muito recentemente, todos os mestres falaram a espíritos através do ego e não a seres humanos. Mas, falaram com que objetivo?
A resposta a esta pergunta foi mais uma das falas que Joaquim incorporou muito recentemente: mostrar ao ser universal a hipocrisia humana. Mostrar a eles que o discurso do ser humano é um, mas que a ação é diferente daquilo que diz acreditar.
Na verdade, quem é contraditório é o ser humano e não o ensinamento. Isso porque diz que acredita e aceita uma coisa, mas age de forma completamente diferente... Claro que como já vimos, toda contradição humana é motivada pelo egoísmo, ou seja, pela vontade de ganhar para poder ter prazer alcançando assim a fama através dos elogios...
Este, para mim, é o propósito único de todos os mestres: mostrar aos espíritos que os seres humanos são contraditórios sempre que o ganhar pessoal é ameaçado pela prática dos ensinamentos.
Ao transmitirem seus ensinamentos através do ego humano, os mestres criam um balizamento, ou seja, criam um padrão do que os seus seguidores deveriam seguir. Por exemplo: Cristo nos ensina que devemos amar a todos. Este ensinamento gera, então, para os que se dizem cristãos um valor que deveria ser seguido. Mas, não é assim que os seres humanos vivem.
Eles dizem que amam, mas não a todos. Amam os certos, os bons, aqueles que estão de acordo com os seus parâmetros individuais de certos e bons. Por que amam somente a estes? Porque não querem perder, não querem sofrer, tem medo de perder o seu prestígio individual e serem criticados.
Os seres humanos não amam indistintamente porque se fizerem isso terão os seus valores individuais destruídos e eles perderão aquilo que pode gerar o ganhar, ter prazer, ter fama e ser elogiado. O não amar indistintamente é o fruto do individualismo, do egoísmo, como diz o Espírito da Verdade, que faz com que os seres humanos só coloquem em prática o ensinamento quando eles possam se satisfazer.
Existe nas cartas de Paulo um exemplo muito grande da hipocrisia humana. O apóstolo fala que deu uma bronca em Pedro porque este, ao visitar uma comunidade onde Paulo estava, misturava-se aos gentios (não-judeus) na hora da alimentação, o que é proibido pelas escrituras judaicas.
Acontece que ao chegarem mais pessoas do núcleo de Jerusalém onde Paulo vivia, este deixou de alimentar-se com os gentios. O apóstolo Paulo, então, chama publicamente a atenção de Pedro, acusando a sua hipocrisia...
Esta é uma verdade da qual não podemos nos afastar e nem o apóstolo sobre qual Cristo disse que ergueria sua igreja escapou: o ser humano só pratica os ensinamentos quando isso não lhe trouxer prejuízos...
Agora, será que Cristo não sabia disso? Será que Krishna ou qualquer outro mestre esperava que o ser humano vencesse o egoísmo? Claro que não... Se eles eram tão profundos conhecedores da personalidade humana, claro que eles sabiam que seria impossível a uma personalidade humana vencer suas próprias verdades e seu egoísmo...
Por que, então eles continuaram falando? Porque precisavam expor este cancro que o raciocínio humano não afirma existir...
O raciocínio humano não aceita que a personalidade humana é egoísta. Lembra do exemplo que dei em um outro texto? O daqueles que se dizem muito bonzinhos porque praticam a caridade material? Então, é por aí... O raciocínio humano diz que é “certo” não gostar de quem é “errado” ou “mal” escondendo que estas qualificações só existem para que a satisfação individual não seja perdida...
Como é que um espírito que está ligado a uma consciência humana que esconde o individualismo sobre uma capa de bom e certo poderia compreender isso se não houvesse os ensinamentos?
Tudo isso os ensinamentos dos mestres e de seus auxiliares, como Joaquim, transmitem ao espírito e, por isso, é o propósito único de todo trabalho da espiritualidade...
Ao meu ver, se todos são mestres, todos deveriam ensinar a mesma coisa..
Cristo diz: não mate!..
Krishna diz: mate!
Agora você vai entender o porquê de ter pedido para responder suas questões fora de ordem: era precisar entender o propósito único para depois compreender porque Cristo e Krishna foram contraditórios...
A partir dos ensinamentos destes dois mestres foram geradas doutrinas religiosas diferentes. Apesar de aparentarem ser completamente diferente uma da outra, o que elas contêm em comum? Vença suas paixões e desejos e com isso o egoísmo será anulado...
Vencer o egoísmo é vencer a si mesmo. É vencer a si mesmo, é vencer suas paixões (o que gosta, o que acha certo e bom). O resultado de quem vence suas paixões é o fim do desejo o que leva a se vivenciar tudo de maneira equânime, ou seja, sem prestigiar nenhuma verdade.
O egoísmo não está no ato de matar ou em qualquer outro, mas na intencionalidade com que se vivencia o acontecimento. O ser humano que mata quando quer é egoísta; aquele que não mata quando acha que não deve fazê-lo, também o é...
Sendo assim, quando Cristo ensina o não mate, ele está criando um balizamento para mostrar o egoísmo dos egos humanos que aplicam este ensinamento quando querem, ou seja, que acham “certo” um tipo de matar, mas não acham outro.
Se levássemos o ensinamento ao pé da letra, todo ser humano cristão, inclusive o próprio Cristo, deveriam ter vegetarianos. A ingestão de carne, seja branca ou vermelha, só pode acontecer depois de uma morte.
Sendo assim, para não matar, eles não poderiam comer carne... Mas comem. Pior: dizem que é certo matar para alimentar-se...
Repare que estou falando apenas de ato, mas ainda tem o desejo não realizado. Cristo ensina: de nada adianta não adulterar; se você sentiu vontade já pecou... Ora, os cristãos não chamam de pecado o desejo de matar, mas ele também é proibido por Cristo.
Quem viu o discurso do papa acusando Judas depois da divulgação do evangelho deste, reparou que se o apóstolo traidor estivesse vivo, o papa, com certeza, o teria excomungado e lutado pela sua condenação à cadeira elétrica. Este discurso estava de acordo com os ensinamentos de Cristo? Ele segue o não mate? Mas, para o papa condenar Judas é certo, pois, segundo a tradição católica ele traiu Cristo, mesmo que o mestre da sua doutrina tenha ensinado ao contrário...
Já Krishna diz que deve se matar e cita no Bhagavad Gita diversos motivos para tanto. Mas, será que o mestre não estava querendo ensinar a mesma coisa que Cristo?
Por que ele disse a Arjuna que ele deveria matar? Porque o seu discípulo achava errado matar. Ou seja, porque ele tinha uma paixão que levava a um desejo...
Não é o mesmo ensinamento? Não se prenda ao que você quer, gosta ou diz que é certo, mas viva o que tenha para viver em paz, harmonia e felicidade: este é o âmago do ensinamento de todos os mestres...
Pronto... Reduzindo-se os ensinamentos à sua essência, ou seja, libertando-se do significado da letra fria, vemos que todos os mestres ensinaram a mesma coisa. Apenas as palavras são diferentes e o sentido pode parecer também diverso, mas no fundo todos os mestres ensinaram a mesma coisa.
eu acredito nas coisas que o PJ diz, mas quando ele fala que nada existe, somente o espírito, Deus e energia cósmica universal... aí depois ele fala sobre como resolver problemas do ego... é o contrário do que ele acabou de falar.. por que uma hora existe e outra hora não existe? ou existe ou não existe! Ao mesmo tempo, se existe ou não existe.. que diferença faz??
Aqui ainda a mesma coisa que já falamos: Joaquim falando a ego através de espíritos.
Quando fala das coisas do Universo, o amigo espiritual está mostrando ao ser que as percepções que a personalidade humana diz existir não são reais; quando fala como resolver problemas do ego, mostra que o egoísmo tem solução, mas que esta não é alcançada pela razão humana porque a personalidade que lhe serve como provação na encarnação não está disposta a abrir mão do egoísmo.
se eles estão fazendo isso de propósito, então é perda de tempo querer evoluir por algum tipo de ensinamento. .
pessoas que seguem religiões e conceitos absurdamente diferentes alcançam a evolução da mesma maneira..
Por isso nenhum mestre criou uma doutrina religiosa. Todos foram unânimes em afirmar: ame a Deus acima de todas as coisas.
Paulo é bem taxativo neste aspecto: a elevação espiritual não se alcança com a subjugação à lei, mas pela fé. Para mostrar o que disse falou do exemplo de Abraão, ou seja, daquele que foi além do que era “certo” por confiança e entrega a Deus...
Portanto, o que pode ajudar o ser espiritual na elevação não é a subjugação à doutrina que a personalidade humana siga, mas sim na entrega com confiança ao Senhor.
Até agora eu também não entendi porque eles querem tanto que os espíritos evoluam e qual o sentido da evolução. São mestres, eles deviam saber! Quando eu perguntei isso ao PJ uma vez, ele me disse "não sei, pergunta pra Deus".
ok, então estamos todos tentando evoluir por alguma coisa que ninguém sabe o que é, e nem pra que serve..
Quem está tentando evoluir, você? Será que você, ser humano, se julga capaz de vencer o egoísmo sem criar novas verdades que o irão nutrir? Quem está tentando evoluir é o espírito e você é apenas o instrumento que utiliza para a elevação: isso é o que ensina o EEU.
Mas, para que os espíritos querem evoluir? Mais: o que é evolução para o espírito? Como podemos ter respostas a estas e outras perguntas se, como diz o Espírito da Verdade a Kardec o espírito para nós é um nada?
É por isso que deixei de querer saber muita coisa...
Como disse antes, o que mais me atrai no EEU é que eu passei a saber que nada vou poder saber. Sendo assim, para que me preocupar com estas questões?
Em todos as palestras que escuto tem sempre o mesmo questionamento: o espírito pode isso, o espírito faz aquilo, o que é isso para o espírito? Para que prender-se a estas curiosidades se nem consigo saber o que é o espírito?
Não estou lhe criticando, mas comentando um aspecto que é igual para muitos. Estes questionamentos são o que há de mais comum nas gravações das palestras. Mas, me pergunto: será que um dia nós, seres humanos, conseguiremos saber as respostas a estas questões? E se os espíritos pudessem nos responder, será que haveria palavras para descrever o que é indescritível?
isso não quer dizer que eu não acredite ou não queira fazer parte.. só acho que a mensagem deveria ser mais clara e objetiva..
Mais clara do que elas são? Impossível...
A mensagem de Joaquim, pelo menos para mim, é clara: você nada pode fazer, nada tem a executar, nada conseguirá saber, por isso viva a vida que você tem da forma que ela é e do jeito que viver...
“Tudo que vêm a mente do ser humano é maya”, isso ensina Krishna. Com isso ele quer dizer que todas as consciências (verdades) que existem na personalidade humana são ilusões.
Este conceito que já sabemos, mas muitas vezes a personalidade humana separa elementos dentro da ilusão que diz que não é ilusório. Um destes elementos é o dualismo.
Joaquim na sua palestra de ontem falou isso e causou muito espanto entre os ouvintes, pois aqueles que possuem alguma iniciação nos estudos de Sri Krishna e mesmo de Buda estão presos à idéia de que o mundo humano, se resultado do poder inescrutável de maya, necessariamente tem que ser dualista. Mas, se o dualismo é uma idéia que passa pela mente humana, ele também tem que ser ilusório.
Então, vejamos...
Vamos tomar, por exemplo, uma declaração humana que diga “eu gosto”. Para nós ela é dualista porque existe o outro lado da moeda: eu não gosto. Mas, será que é mesmo? Para responder esta pergunta precisaremos divagar um pouco sobre a realidade humana...
Afirmar através de palavras é o fruto de um raciocínio. Sendo assim, para que uma personalidade humana afirme que gosta de alguma coisa, foi preciso uma formação mental que contemplasse esta verdade.
Esta formação mental ou raciocino se forma num determinado segundo, ou seja, em um determinado espaço de tempo que chamaremos de agora. Se neste agora o ser humano gosta de alguma coisa, isso quer dizer que ele não desgosta...
A possibilidade de desgostar aconteceu em outro momento, em outro agora, mas neste exato momento não existe outra possibilidade. Ou melhor, existe a idéia de que poderia haver, mas não há...
Os mestres, inclusive os católicos como Santo Agostinho, afirmam que apenas o presente existe. O passado já passou e o futuro não chegou. Portanto, apenas o agora é real...
Se apenas o agora é real, nele existe dualismo? Claro que não. No agora a personalidade humana que está servindo de exemplo para esta nossa conversa apenas gosta de uma coisa. Neste momento, como vimos, ela não desgosta...
Ora, se apenas o gostar é real, onde está o dualismo? Na idéia de que a vida humana é formada por uma história...
O ser humano costuma imaginar que todos os momentos que vivencia são existentes, mas não são. Apenas o momento de agora existe, mesmo que seja numa realidade ilusória. Os momentos passados não mais existem, nem mesmo na realidade ilusória, e os futuros ainda não chegaram.
Isso quer dizer que se em algum momento no passado ou no futuro esta personalidade humana não gostar daquele algo, não houve dualismo, mas sim um novo agora onde existiu ou existirá apenas uma verdade. Sendo assim, onde está o dualismo? Está apenas no mundo da teoria, ou seja, é mais uma verdade da qual o ego precisa se libertar.
A crença na possibilidade da realidade ilusória atual ser diferente (a personalidade humana poderia não estar gostando neste momento) afasta o espírito da Realidade Real, que é aquilo que está acontecendo. Quem vive um mundo de possibilidades, ou seja, que o que está acontecendo poderia ser diferente do que é, não interpenetra no Universo, pois está preso a possibilidades que nunca ocorrerão...
O momento presente da realidade ilusória, seja ele composto pelo que for, não pode ser alterado. Se neste agora você está lendo este texto não poderia estar fazendo mais nada. Se daqui a alguns segundos virar-se para o lado para ver outra coisa, será um novo momento onde, também, não poderia estar fazendo mais nada...
Este é o resultado do ensinamento dos mestres que dizem que devemos viver cada momento isoladamente. Se a personalidade humana não vivencia cada momento isoladamente, ela os conecta como uma história e aí acreditará que o dualismo pode existir. Mas, isso é apenas uma idéia que vem a mente da personalidade humana, porque a vida não é composta por uma história, mas sim de momentos agora vivenciados sem vínculos entre si...
Portanto, se existe apenas o momento atual e se nele não pode haver ambigüidade, o dualismo não existe nem no mundo humano...
Aliás, isso seria óbvio se tivéssemos uma visão global do Universo ao invés de ficarmos presos apenas no nosso mundinho...
O que é o Universo? Tudo que existe... Tudo engloba todas as coisas. Sendo assim, a realidade humana, mesmo que ilusória, é algo universal, é algo que pertence ao Universo...
Sendo ela universal, fatalmente teria que estar sujeita às verdades universais e no Universo, afirmam os mestres, não existe dualismo.
Um amigo afirma que ao refletir sobre o texto que fala que o dualismo é apenas mais uma das ilusões geradas pelo ego chegou à seguinte conclusão: a chamada evolução espiritual, a emancipação do eu material e a própria vida também o são.
Eu concordo: para mim estas idéias são também criação do ego. Aliás, na palestra realizada durante o encontro em São Paulo Joaquim deixou isso bem claro. Ele afirmou que a idéia de evolução espiritual que as personalidades humanas têm são fruto da criação do ego e não uma Realidade universal. Disse que se quisermos chamar alguma coisa de evolução espiritual esta idéia não pode conter ascensão nem muito menos alterações de coisa alguma, pois o Universo é Uno, Único e Estável. Mas, sobre isso pretendo escrever depois. Queria aproveitar um e-mail para tocar em outro assunto.
Você me fala que chegou a esta conclusão refletindo a partir de dois aspectos: tempo e espaço. Para você – e eu também concordo com isso – as idéias sobre evolução espiritual, emancipação do ser e a própria vida humana precisam da existência de tempo e espaço, pois são estes elementos que criam as historinhas necessárias para manter vivas estas idéias.
Como você diz, se o tempo e o espaço são existentes apenas dentro do mundo ilusório humano, como afirmam os mestres, como pode haver elevação espiritual, emancipação do ser ou a própria vida humana? É sobre isso que gostaria de aproveitar o seu e-mail para falar...
O exercício que você fez – e que também venho tentando fazer com estes textos – chama-se reflexão ou desenvolvimento lógico de um tema. Trata-se de refletir sobre um tema a partir de informações disponíveis visando chegar a uma conclusão.
Podemos chamar a isso também de pensamento... Pensar é isso: refletir sobre um tema utilizando-se de informações presentes. Infelizmente, como diz o Dr. Augusto Cury – psiquiatra e escritor famoso – o homem deixou de executar o grande espetáculo do pensamento... Hoje ele apenas repete o que lhe dizem sem parar para refletir sobre o tema...
Antes de continuar, porém, me permita falar aos teólogos de plantão do EEU. Antes que venham me dizer que Joaquim nos ensinou que o pensamento é dado por Deus e que por isso não podemos pensar como queremos, deixe-me falar algumas coisas...
Joaquim, fundamentando-se nos ensinamentos dos mestres, realmente nos disse que Deus é a Causa Primária de todas coisas e por isso é Ele quem nos dá o pensamento. Mas, pergunto: é com esta realidade que nós vivemos? Esta é uma verdade presente no seu dia-a-dia ou você ainda acha que pensa?
Claro que, por mais que tenhamos ouvido o amigo espiritual do EEU, por mais que o achemos certo, diuturnamente seus ensinamentos não fazem parte de nossa lógica. Apesar de culturalmente imaginarmos que sabemos, na prática a vida é bem diferente. Imaginamos que pensamos por moto próprio, ou seja, acreditamos que somos nós que estamos formando aquele pensamento.
Por isso a razão deste texto...
Se você imagina que pode pensar por si só – e eu me junto a todos que acham isso, apesar dos nove anos ouvindo Joaquim – reflita um pouco nestas palavras. É claro que culturalmente sei que elas só surtirão o efeito, ou seja, só gerarão o pensamento que Deus der a cada um, mas se assim é, este texto e os pensamentos que ele contém também foram dados por Deus...
Voltemos ao assunto reflexão...
Como disse, refletir é criar uma formação lógica que determine um resultado. Estudei um pouco de lógica na faculdade e lá me foi ensinado que uma formação lógica é composto de dois elementos: premissas e resultado.
Exemplo: Todo animal emite um som; o gato mia; logo, todo animal que miar é um gato...
Este é um exemplo chulo, mas que mostra uma linha de raciocínio criada dentro dos padrões da Lógica. As duas primeiras frases são os argumentos e a terceira é a conclusão que é verdadeira e única, pois atende as premissas levantas pelos argumentos.
Numa construção lógica, toda conclusão é verdadeira, a não ser que o argumento não o seja. Exemplo: Todo homem é bom; eu sou homem; logo sou bom...
A conclusão desta reflexão não é real porque uma das suas premissas é falsa: nem todo homem é bom... A este tipo de premissa a Lógica chama de falácia.
Ou seja, a conclusão só será falsa se uma das suas premissas for falsa, mas se isso não acontecer, logo ela será verdadeira...
Voltando ao nosso assunto, a reflexão do que nos é ensinado, e aplicando o que disse acima à execução do espetáculo do pensamento, podemos entender que o que o Dr. Cury salienta é que o homem deixou de analisar aquilo no que acredita. Hoje, ele apenas “compra” idéias prontas sem analisá-las à luz daquilo que acredita...
Se você – assim como eu – acredita que pode pensar por moto próprio, precisa se atentar a este detalhe. Precisamos analisar a luz daquilo que estabelecemos como “verdade”, mesmo que relativa, mas real para nós, todo o resto...
Digo analisarmos a luz daquilo que estabelecemos como “verdade” porque, como afirma a Lógica, a conclusão será verdadeira para cada um se as premissas que levam à ela também o forem. O exemplo está exatamente na reflexão do Armando.
Ele acredita que todos os elementos do pensamento humano são ilusões. Sendo assim, a conclusão de que a elevação espiritual como entendida por esta personalidade não pode ser real... Trata-se de uma questão lógica...
Na verdade, o que ele conseguiu foi uma expansão de consciência...
Este termo tem sido muito utilizado hoje em dia pelas fontes universalistas e espiritualistas, mas, pelo menos para mim, de forma errônea. A idéia que se têm sobre expansão de consciência é a de alcançar conhecimentos novos, descobrir o que ainda não está descoberto.
Não sou totalmente contrário a esta idéia, mas como “descobrir” alguma coisa sem haver um parâmetro que possa nos mostrar que algo foi “descoberto”? Ninguém pode descobrir nada se o que for descoberto não for antes aceito como expansão de uma verdade que já existia...
Se alguém descobre alguma coisa que não possui referencial algum que a qualifique como verdadeiro, certamente irá descartar o que foi descoberto. Dirá que aquilo é uma alucinação, que não é real, que não é verdade...
Sendo assim, pelo menos para mim, expansão de consciência é conhecer outras coisas a partir da análise feita utilizando algo que já é conhecido, que já é verdadeiro...
Sei que estou falando muito em pensar e em verdades, coisas que para aqueles que acreditam nos ensinamentos do EEU são apenas ilusões, mas estou falando de ser humano para ser humano. Como disse em São Paulo, de nada adianta vivermos com as verdades dos espíritos se elas não se aplicam ao nosso mundo. Disse e reafirmo: tais conhecimentos devem existir como referências e não como elementos de nossas vidas...
Somos seres humanos e vivemos como humanos, mesmo que afirmemos que possuímos informações que dizem ao contrário. Por isso continuo falando em verdades... Até porque, se tudo é causado primariamente por Deus...
Voltando, então, ao que estava falando a partir do e-mail do Armando, acho que somos humanos e se possuímos verdades, mesmo que relativas, e imaginamos que podemos pensar, deveríamos buscar expandir nossas consciências, ou seja, aplicar as verdades que acreditamos em pensamentos lógicos para chegarmos a conclusões sobre outros assuntos. Foi isso que o Armando fez; é isso que tenho buscado fazer com estes textos.
O contrário disso, ou seja, daquele que não promove o espetáculo do pensamento, são aqueles que correm a livros ou a mestres em busca de uma resposta para suas dúvidas. Com isso não concluem, mas apenas recebem uma informação pronta que decoram e saem distribuindo. Estes jamais conseguem criar uma “verdade” sua para servir a novas conclusões e vivem como barquinhos navegando ao sabor do vento, ou seja, do que lhe dizem...
Por isso, amigo Armando, aproveitei o seu e-mail e desabafei. Acho que podemos e devemos ter verdades – até porque se as tivermos nada há de errado nisso, pois o problema é o espírito acreditar nelas e não nós as termos, como nos foi ensinado – mas não conseguiremos, tê-las apenas escutando o que nos dizem: é preciso chegar a conclusões próprias...
Expandir a consciência, ou seja, ter mais compreensão sobre as coisas da vida, é o resultado do raciocínio constante, da execução do espetáculo do pensamento...
Mas, para isso, a primeira coisa é acreditar em algo. Não há como se expandir a consciência sem que se parta de uma premissa que pelo menos para nós seja “verdade” e “real”. Isso é fé, ou seja, confiança e entrega a alguma coisa.
Dentre as múltiplas linhas de informações que todos nós recebemos devemos escolher uma que aceitamos mais, à qual nos afeiçoamos mais. A partir deste momento, devemos transformar o que ela cita como verdade e não questioná-la constantemente...
Quando, no trabalho do ego – Conhece a ti mesmo – Joaquim disse exatamente isso, houve muita contestação. “O senhor está dizendo que não podemos questioná-lo”, perguntaram as pessoas. Ele respondeu: não é isso que quero dizer...
O que ele sabiamente nos ensinou é que não importa no que você acredite, acredite naquilo. De nada adianta ficar questionando a premissa fundamental, pois sem ela não haverá expansão de consciência...
Os gurus orientais são taxativos neste ponto: o primeiro aspecto para se aprender alguma coisa é a obediência ao mestre... De nada adianta se estar em algum lugar questionando constantemente o que ali é dito.
Se aquilo não lhe convém ou não lhe faz bem, busque outro até encontrar algo que lhe satisfaça. Quando o encontrar, porém, abrace-o com entrega e continue por lá, pois sem uma primeira verdade que oriente todo processo de reflexão que leva à expansão da consciência nada é alcançado...
O Espiritualismo Ecumênico Universal está lotado de informações do que deve ser feito ou deixado de fazer. Mas, quem deve fazer o que está sendo ensinado? Vamos conversar sobre isso?
Agora no final Joaquim afirmou: eu falo a espíritos através do ego. Ao agir desta forma, o amigo espiritual deixou bem clara a existência de duas personalidades: a humana (ego), mesmo que de forma ilusória, e o espírito. Se o falar do amigo espiritual constitui-se naquilo que o EEU diz para fazer ou no que deve ser abandonado, para se saber quem deve seguir estes ensinamentos precisamos antes estabelecer quem é quem, ou seja, quem é o espírito e o ego...
Eu sou o ego.
Eu sou o Firmino... Sou o marido da Márcia, o pai da Elen, da Paula, do Eduardo e do João Márcio. Vejo-me como homem, sinto-me carioca e moro atualmente no interior de São Paulo. Se tudo isso me compõem, se tudo isso é o que eu sou, não posso me considerar espírito, não é mesmo?
Sendo eu o ser humano, posso dizer, utilizando-me da informação final de Joaquim, que ele fala através de mim para o espírito e não para mim...
Por isso reafirmo: eu não tenho que fazer o que Joaquim ensina...
Aqueles que se sentem impulsionados a ter que praticar o que é ensinado são os que se imaginam como o espírito. Mas, eles não são...
Lembro-me ainda a primeira vez que disse a dois amigos: eu sou o ego... Um deles ficou completamente estarrecido e me disse que eu estava enganado: eu era a centelha divina que vivia dentro do ser humano... Não sou nada disso...
Seria se houvesse algo de divino em mim. Seria se vivesse com valores universais. Mas, não vivo...
Todas as minhas crenças, mesmo aquelas que falam do outro mundo são formadas por verdades materiais. Ainda acredito nas formas, nas sensações, nas percepções, nas formações mentais e no que o a minha memória diz que é real. Não me entrego a Deus e ainda questiono a vida, a justiça dos acontecimentos, as verdades dos outros, o “bom” e o “mal” e o “certo” e o “errado” das coisas. Ainda tenho paixões e como desejo coisas...
Portanto, sou humano, sou ego. E se sou humano, os ensinamentos não foram feitos para mim, mas transmitidos ao ser universal através de mim...
Tentar colocá-los em prática é a mesma coisa que elementos com propriedades diferentes quererem proporcionar o mesmo resultado. Impossível...
Os ensinamentos não são para mim, por isso de nada adianta ficar preso a eles. Na verdade, para mim humano eles nada valem...
Desculpem, fui radical: os ensinamentos valem sim...
Amigos têm dito que ao colocar os ensinamentos em prática em suas existências têm melhorado. Eu mesmo já disse aqui e em outros lugares que me sinto melhor hoje ao saber que nada conseguirei saber...
Isso quer dizer que devo apagar todo este texto e esquecê-lo? Não...
Acontece que os seres humanos, dentro do seu padrão lógico, quando recebem um ensinamento sobre qualquer coisa geram logo a obrigação de cumpri-lo. Tudo que é recebido como orientação transforma-se logo em um código de normas e procedimentos que precisa ser cumprido...
No caso dos nossos ensinamentos, este código de normas gera a idéia de uma forma de viver que atenda aos preceitos que Joaquim chama de elevados. Mas, ele não falou para mim, mas sim para o espírito...
Por isso disse: eu não tenho que fazer o que Joaquim disse... Não estou falando em não fazer, mas sim em não se sentir obrigado a fazer... Se alguém tem que se sentir obrigado a fazer é o espírito, destinatário final da mensagem e não eu...
Esta compreensão é importante para se fugir, se conseguir fugir, do elemento mais danoso para nossas existências: a culpa...
Só se sente culpado aquele que se sente obrigado a fazer alguma coisa. Se eu não sou o destinatário final da mensagem de Joaquim e por isso não tenho obrigação de fazer o que ele afirma que deve ser feito, por que, então, tenho que me sentir culpado quando não o fizer?
Volto a repetir: não estou indo contra nada do que foi ensinado. Sei que todos viverão aquilo que têm que viver, mas este texto faz parte da vida de cada um daqueles que o lerem...
Se nos imaginamos humanos, se imaginamos que podemos errar por ação própria, ou seja, nos achamos capaz de não cumprir com o que foi determinado e por isso sofremos, devemos, então, também ser capazes de compreender que esta culpa, na verdade, trata-se de uma apropriação indébita do que é da alçada do espírito...
Aliás, se conseguirmos colocar em prática o que estou dizendo aqui, estaremos seguindo o próprio ensinamento de Joaquim: se fizer, fez, se não fizer, não fez...
Enquanto não vem a palestra, gostaria de dizer algumas palavras. Aliás, sinto a necessidade disso...
Eu e a Márcia somos os únicos que vêm acompanhando os ensinamentos de Joaquim desde o princípio. Amigos que começaram conosco não mais nos acompanham... Isso não é vantagem alguma, mas trás certo olhar global que muitas vezes não é alcançado por quem iniciou agora as leituras dos textos...
Não estou dizendo que sabemos mais dos ensinamentos, mas que acompanhamos a história. Por isso acredito que tenhamos um olhar mais objetivo do desenrolar das coisas. Não estou falando de ensinamentos, mas do trabalho em si...
Tudo começou de uma forma completamente diferente do que está hoje. Na verdade, quando nos mudamos para Piracicaba nossa idéia é que íamos fundar um centro de umbanda... Achávamos que os estudos, que já havia, era apenas um complemento para facilitar o trabalho. Mas, a coisa mudou...
A partir de 2001, com o estudo do Evangelho de Tomé, progressivamente os trabalhos de umbanda foram extinguindo-se e os estudos foram dominando as conversas. Até que hoje temos exclusivamente os estudos como trabalhos do EEU.
No início dos estudos não havia a informação de maya, de que tudo é ilusão e essas coisas que vocês estão tão familiarizados hoje em dia... Joaquim falava sempre em nos mudar, em nós, seres humanos alterarmos nossa forma de viver...
Isso pode ser observado com os textos do Evangelho de Tomé. Se existe ali alguma informação a respeito de maya é bem sutil...
Depois, com a evolução dos estudos, fomos sendo levados ao conhecimento da existência do mundo de maya. Mesmo assim, a idéia de que podíamos fazer alguma coisa ainda ficou. Joaquim ainda falava que nós humanos tínhamos capacidade de reconhecer a existência de maya e escapar dele...
Só depois, quando começamos a estudar o Avadhut Gita, a idéia de que nós humanos somos apenas uma idealização de Deus e que por isso nada podemos fazer apareceu...
Como disse, a vivência do que estou falando nos fez ver com clareza que os estudos foram realizados em etapas diferentes bem distintas... Mesmo que hoje se tenha disponível grande parte do que já foi estudado, fica difícil ver o desenrolar destas etapas para quem está chegando agora...
Por que estou dizendo isso? Porque sinto que uma nova etapa está começando...
É forte em mim hoje a convicção que Joaquim estará disponível para conversar conosco apenas esporadicamente. Sinceramente, não vejo no futuro a continuação do trabalho que estávamos acostumados...
Além disso, sinto que o trabalho vai dar uma guinada retrocedendo ao início. Esta consciência está fundamentada pelo que tenho escrito recentemente: a realidade do mundo terrestre para o ser humano...
Era exatamente isso que pretendia conversar com vocês ontem, mas não deu certo...
Estou tentando por idéias em ordem e tentando, ainda, conseguir um tempo para colocá-las no papel, mas o fundamento é exatamente esse: existem dois mundos onde duas realidades são vivenciadas e em cada um destes mundos existem seres que os vivenciam de forma real para eles.
De nada adianta querermos aplicar as verdades de um mundo para outro. De nada adianta querer se viver um mundo com a verdade do outro... O espírito precisa viver o seu mundo com a sua verdade e a sua realidade e nós, seres humanos, devemos, se fizermos, viver este mundo com nossas verdades...
Isso para mim é desdizer tudo o que já foi dito antes; isso é o que gostaria de colocar para fora...
Pensar isso vai contra o que já foi ensinado? Claro que não... Se tudo que o ser humano faz é idealizado por Deus, o que estou fazendo também o é...
O grande truque, para mim, é compreender que se tudo está escrito, faça-se o que se fizer, já estava escrito. Se o que nós pensamos aparentemente se contrapõe ao que já foi dito, a contraposição foi idealizada por Deus e, por isso, não se trata de nenhuma contraposição...
Uma das coisas que mais me marcou nesta caminhada foi o final do segundo filme Matrix. Não sei se vocês assistiram, mas nele o cara que luta com a Matrix consegue chegar ao programador central, à central onde o mundo virtual era criado.
Ao chegar lá ele vê diversos monitores todos eles exibindo a sua própria imagem. Mas, ele reconhece que apesar das imagens serem idênticas em forma, os que ali estavam sendo projetados não era ele...
Aí ouve-se o programador falando. “Você pensa que é contra mim, mas se eu projeto tudo, você é minha projeção. Portanto, fui eu que o criei para lutar contra mim e administro a sua luta...”
Esta é uma visão muito interessante. Tudo é possível, quando existe um programador central, mesmo a luta contra ele...
Claro que os ensinamentos do mundo espiritual podem criar balizamentos interessantes, mas eles não podem servir como parâmetros total para se viver uma realidade diferente daquela que se vive. Ou seja, podemos conhecer o que Joaquim nos ensinou sobre o mundo dos espíritos, mas não podemos nos apegar a estas idéias e esquecermos do dia-a-dia – claro, se o programador fizer isso acontecer...
Bem, era isso que queria dizer com este desabafo... O resto vou tentar colocar no papel ou conversar na quinta feira...
Antes de qualquer coisa agradeço a todas as respostas que me enviaram ao e-mail “Desabafo”, seja pela lista ou particularmente. Vou responder a todos, mas como não disponho de muito tempo no momento, preferi escrever este texto agora que as idéias já amadureceram mais...
Com quem estou falando? Com ninguém especificamente. Estou me dirigindo a todos com os textos que tenho publicado recentemente...
Quem eu pretendo alcançar? Aqueles que estão lutando para por o ensinamento em prática e não conseguem, com aqueles que estão aprisionados na necessidade de fazer a elevação espiritual e com aqueles que estão presos à idéia de conhecer as coisas do mundo espiritual...
Quando digo eu sou um ego, na verdade não quero afirmar que sou alguma coisa, mas afirmar diretamente que não sou um espírito. Sou o que minha mente humana diz que sou, conheço o que minha mente humana diz que conhece, vivo aquilo que minha mente humana diz que estou vivendo...
Sendo assim, não posso ser espírito, pois como Joaquim ensina nada que vem à mente humana pertence ao mundo dos espíritos. Apenas aquilo que não é percebido por ela pode pertencer ao Universo espiritual, mas como o que não é percebido por ela não chega à minha consciência, estas coisas não existem para mim...
Apesar desta minha convicção particular – que não quero provar que é certa para ninguém – ser ou não ser espírito é de menos relevante nesta história toda... O que quero dizer é muito mais do que provar se sou ou não algo...
Quero dizer aos que estão buscando viver de acordo com os ensinamentos do EEU que eles não precisam sofrer quando não conseguirem, pois Joaquim deixou bem claro que faremos se fizermos. Eles não devem sofrer por não fazer, como, aliás, o amigo espiritual ressaltou diversas vezes, pois o ser humano nada pode fazer...
Quero dizer aos que estão preocupados, ao viver a vida que tem, com a elevação espiritual que se acreditam no que o EEU fala, não devem se preocupar com isso. Como o amigo espiritual disse, esse processo ocorre com o espírito no mundo espiritual e não com o ego no mundo material. Além disso, como ele ressaltou diversas vezes, elevação espiritual é algo que não se conquista, mas recebe-se de Deus. Sendo assim, porque se preocupar com isso?
Quero dizer aos que estão preocupados em conhecer o habitat do espírito que não precisam se preocupar com isso, pois a mente humana, a única realidade que conhecemos agora, não possui elementos capazes para compreender o Real...
Enfim, quero retirar dos ensinamentos que recebemos através do Espiritualismo Ecumênico Universal todo caráter espiritual, todo caráter, digamos, religioso. Este aspecto dos ensinamentos para nós egos humanos não serve de nada, pois não podemos acessar o Universo espiritual...
Com isso estou dizendo que quero negar tudo o que foi ensinado? Não. O que quero dizer é que estes ensinamentos podem ser úteis, se forem, para nós de outra forma. Podem ser úteis para que consigamos, se conseguirmos, viver esta existência material em paz, harmonia e felicidade...
Como disse, tudo o que nos foi passado por Joaquim veio em etapas. Na primeira ele não se preocupava tanto com a elevação. Aliás, quando falava disso dizia que ela se confundia com o alcançar estes elementos na vida carnal.
Ora, se estou dizendo isso, estou dizendo a mesma coisa que ele já disse... Por isso não posso estar contra ele.
Na verdade estou a favor dele. Na verdade estou querendo – pelo menos é isso que minha mente humana está dizendo – é separar o joio do trigo, ou seja, aquilo que pode ser útil para nós, egos humanos, daquilo que de nada nos adianta...
De que adianta sabermos como é o habitat do espírito se quando ele chegar lá nós egos, ou seja, tudo o que está em nossas mentes neste momento não mais existirá?
De que adianta nos preocuparmos com a reforma íntima se para que o espírito a receba de Deus ele deve nos matar, ou seja, jogar-nos no lixo do Universo?
De que adianta o desespero de fazer alguma coisa, se nada é feito por nós. Se nossa ação nada tem a ver com a do espírito?
Acho que já coloquei minha posição claramente: acredito nos ensinamentos do EEU, acredito que existe o espírito e a ilusão humana de ser e acredito que eu sou esta ilusão. Mas, porque é, no meu modo de ver, importante assumir a consciência de ser o humano? Vou tentar explicar porque acho importante isso com um ensinamento de Joaquim: no Universo existem as verdades relativas e a absoluta.
Um dos primeiros ensinamentos que os amigos espirituais nos passaram foi de que no Universo existe uma Verdade Absoluta: Deus e sua ação. Todo o resto são verdades relativas, ou seja, são verdades individuais que duram apenas durante algum espaço de tempo.
A partir desta premissa, Joaquim diria ao espírito: não acredite nas verdades que se formam na mente do ser humano, não acredite nas idéias ilusórias que estão chegando à sua mente primária a respeito de qualquer coisa...Esta é a prática do ensinamento dele para os espíritos. Mas, será que é a mesma para os seres humanos?
O exemplo que vou dar não aconteceu uma ou duas vezes, mas diversas. Logo depois de passar este ensinamento Joaquim perguntava: compreenderam? Quase todos diziam que sim...
O que faziam estas pessoas? Tornavam uma verdade relativa em absoluta. O ser humano ao acreditar que compreenderam e aceitaram o ensinamento estavam transformando-o em uma verdade absoluta. Ou seja, estavam tornando absoluto o ensinamento que dizia que eles nada podiam conhecer de absoluto... Chega a ser cômico, não?
O que deveria então fazer o ser humano? Responder a Joaquim: não sei...
Não sei: esta deveria ser a resposta do ser humano para qualquer coisa, pois tudo o que ele souber trata-se apenas de uma verdade relativa sendo utilizada de forma absoluta. Mas, será que algum ser humano consegue viver assim, consegue viver sem tornar absoluta a verdade relativa? Eu acho que não...
O ser humano que conseguisse vivenciar a prática deste ensinamento (não acreditar em nada) não existiria, pois para existir ele teria que pelo menos acreditar em si mesmo, na sua própria existência...
É inerente à mente humana a transformação de verdades relativas em absolutas, ou seja, no acreditar que alguma coisa é “certa” ou “real”. A mente humana nem existiria se não isso não acontecesse, pois o próprio pensar é uma atividade que necessita da presença de verdades admitidas como reais e certas para existir...
Será que Joaquim não sabe disso? Será que os amigos espirituais acreditam que o ser humano pode viver com a relatividade? Claro que não... Eles nos conhecem melhor do que nós mesmos...
Então, o que quis dizer Joaquim aos seres humanos? “Eu sei que vocês precisam de verdades que acreditam serem absolutas, mas compreendam, elas são relativas. Ou seja, eu sei que vocês precisam acreditar em alguma coisa, mas quando fizerem isso saibam que o que você acredita é uma verdade só para você e ela um dia será transformada”...
Veja a diferença: para o espírito Joaquim diz para não creditar no que acredita, para o ser humano ele diz que acredite, mas tenha em mente que não deve imaginar que todos vão acreditar da mesma forma e nem que ele mesmo permanecerá eternamente com esta idéia... Bem diferente um do outro, não?
Aí está porque venho dizendo que é tão importante entendermos que somos seres humanos. A mensagem do EEU para os espíritos é uma e para os humanos é outra. A dos espíritos é inexeqüível cessível ao humano; a do humano de nada adianta para o espírito...
Justamente por confundir-se um com o outro é que muitos dizem que conseguiram alguma coisa, mas não compreendem que ao dizer que alcançaram estão apenas acreditando em algo que é relativo. Segundo o EEU nenhum ser humano pode por em prática o que o espírito tem que fazer nem muito menos saber o que ele está fazendo... Mesmo que o ser humano aparente estar fazendo o que o se fala para os espíritos fazerem, diz Joaquim, nada se mudou, nada se reformou, mas apenas a programação inicial daquela existência ou encarnação que está correndo dentro do pré-programado...
Acho que com isso completo o que estava querendo dizer: a César o que é de César, a Deus o que é de Deus. A consciência de ser apenas o ser humano é importante para se fizermos, colocar em prática o que pode ser, se for, realizado pelo ser humano, ao invés ficar sonhando que é ou que pode.
Quem sou eu?
Esta pergunta, para a qual os diversos ramos da humanidade buscaram respostas ao longo da história, também foi objeto de atenção do Espiritualismo Ecumênico Universal. Aliás, foi mais que alvo: respondê-la foi uma preocupação constante. Dezenas de palestras com títulos semelhantes foram realizadas.
Desde o primeiro momento dos estudos – estudo do Evangelho de Tomé – o EEU buscou responder esta questão. Já no estudo da logia 19, a primeira das ditas “Verdades Universais” buscava definir quem sou eu... Claro, como todos os demais assuntos, a afirmação inicial foi sendo expandida e complementada com novos conhecimentos ao longo dos nove anos de conversas com os amigos espirituais.
Vamos falar um pouco desta evolução...
No início o Espiritualismo Ecumênico Universal respondia a ela assim: “não existe o ser humano; eu sou o espírito”. Esta foi a primeira resposta que a espiritualidade nos deu para a pergunta quem sou eu...
Dela se deduz que eu sou o espírito e não o ser humano. Mas, o conhecimento sobre quem sou eu não parou por aí...
Na busca do aprofundamento da resposta, como Joaquim disse diversas vezes, esta resposta não pode ser negada, mas pode ser complementada. Aliás, esta foi uma característica de tudo o que foi estudado: houve uma primeira afirmação que aos poucos foi sendo aprofundado o seu conteúdo sem que se mudasse a afirmação inicial.
Neste aprofundamento da compreensão do tema os amigos espirituais nos disseram: você é um espírito, mas está vivendo uma etapa específica de sua existência eterna onde você está humanizado...
Vamos entender o que eles quiseram dizer...
Ser humano, segundo nossa visão, é uma entidade universal, um elemento do Universo. Esta entidade, segundo a resposta original não existe, mas há um espírito humanizado. O que quer dizer isso?
O que determina a razão com que um ser vive é a consciência que ele tem das coisas que o cerca. Segundo os amigos espirituais há uma consciência primária ou espiritual e outra que foi chamada de humana ou material.
Durante uma etapa de sua existência, que nós humanos chamamos de encarnação, o espírito desliga-se de sua consciência primária e passa a viver de acordo com uma outra consciência artificial que é chamada de humana. Este fato foi narrado nos estudos espíritas como o “véu do esquecimento”. Ou seja, alguma coisa que inibe o acesso à consciência primária onde estão os valores universais, o que leva o espírito a acessar somente a consciência humana.
Mas, para compreender bem o que isso quer dizer é preciso se compreender o que é uma consciência...
Consciência é um conjunto de valores, verdades e percepções que faz um ser conhecer a sua realidade. Sendo assim, quando a mente primária do espírito está sendo guiada pela consciência espiritual, a sua razão é determinada por este conjunto de valores, verdades e percepções; quando está sendo guiada pela consciência humana, a sua razão é determinada pelo conjunto de valores humanos...
Mas, ser guiado por um conjunto de valores humanos não transforma o espírito em ser humano? Não... Como definimos anteriormente, em nossa visão “ser humano” é uma entidade, um elemento do Universo, enquanto ser universal ou espírito é outra. O fato do espírito ser guiado por valores humanos não o faz deixar de ser quem é, não altera a sua identidade, mas apenas lhe dá valores diferenciados dos que tinha anteriormente. O espírito encarnado não se transforma num ser humano, mas apenas humaniza-se...
Você é um espírito humanizado: esta é a expansão da compreensão à primeira resposta dada pelos amigos espirituais do Espiritualismo Ecumênico Universal à pergunta quem sou eu... Esta resposta não fere a informação inicial, pois não cria a figura do ser humano que ela diz não existir, mas apenas aprofunda o conhecimento dado originalmente.
Mas, a resposta à pergunta quem sou eu não parou por aí. Depois de dizer que somos espíritos humanizados Joaquim complementou: você é o que é, mas quando está alguma coisa, passa a ser o que está...
O espírito é o espírito: ponto final. Mas, por estar humanizado ele torna-se humano... É isso que o EEU disse complementando a resposta inicial. Vamos entender isso...
Tornar-se humano é viver apenas com os valores, idéias e percepções gerados por uma consciência humana. Todo ser universal que vive com uma consciência humana é humano, pois os valores de sua existência são baseados neste conjunto de valores.
Mas, será que se tornar humano não transforma o ser universal em ser humano? Não...
Como disse anteriormente, o ser humano, segundo a visão do Espiritualismo Ecumênico Universal é uma entidade, uma individualidade. O espírito humanizado, ou seja, aquele que se tornou humano não é um ser humano, pois continua sendo um ser universal, ou seja, uma individualidade espiritual.
Tornar-se humano ou humanizar-se não altera a essência do ser universal. Ele continua sendo o que ele é, foi e sempre será. O que se altera são os valores com os quais ele vivencia a sua existência eterna. Antes estes valores eram universais; hoje são materiais...
Portanto aí está a resposta que o Espiritualismo Ecumênico Universal dá para a pergunta quem sou eu: você é um espírito humanizado, é um humano... Isso não quer dizer que você não seja um espírito, mas quer dizer que você vive apenas valores humanos, vivencia apenas verdades e percepções humanas.
Nesta etapa de sua existência eterna você, o espírito humanizado, não tem acesso à sua consciência primária e por isso nada do que lhe vem à razão é universal. Todas as verdades, compreensões e percepções que tem são humanas, ou seja, são geradas pela consciência humana à qual está ligada.
Sendo assim, posso dizer que você espírito, apesar de ser um ser universal, está humano e por estar dessa forma, é humano...
Você não é um ser humano, mas é humano, um espírito humanizado...
Esta é a resposta que o EEU tem, até agora, para a pergunta quem sou eu que a humanidade faz há muito tempo. Esta resposta é definitiva? Claro que não... Como vimos, a verdade inicial pode ter sua compreensão aprofundada sem que isso altere em essência o que foi dito anteriormente.
O próprio EEU, assim como amigos espirituais de outras falanges universais, com certeza irão posteriormente aprofundando este conhecimento. Foi como disse o Espírito da Verdade a Kardec: quando Deus achar que deve, o conhecimento das coisas será sempre aprofundado por Seus enviados...
Com isso estamos querendo deixar bem claro que não estamos estabelecendo verdades fechadas, que não podem ser contestadas. Como ficou bem claro nestes nove anos, o Espiritualismo Ecumênico Universal é um dos trabalhos da espiritualidade e não o detentor da Verdade.
Alguém me disse assim: “Buda, Lao Tsé, Jesus, e outros, não viveram uma ficção não. A espiritualidade (ou outro nome qualquer que se dê) não se tratava de um conto de fadas para eles, algo para prestar reverencia a distancia não. Era algo que levaram para dentro de suas vidas mesmo".
Isso me fez lembrar a seguinte frase: "eu sou a verdade, o caminho e a vida; ninguém chega a Deus a não ser através de mim". Apesar de esta afirmação ser atribuída a Cristo ela bem poderia ter sido pronunciada por qualquer um dos mestres enviados por Deus para o auxílio aos espíritos encarnados. Isto porque os mestres representam o caminho para se chegar a Deus.
Mas, o que será caminhar para Deus através de um mestre? Para a grande maioria é a idolatria e o culto frio aos seus ensinamentos: nada mais do que isso.
Os templos e igrejas estão sempre cheios de seres humanizados que idolatram os mestres em cultos; seus ensinamentos são recitados com profundo respeito ou colocados em e-mails ilustrados por imagens bem desenhadas e músicas sugestivas. Mas será que só isso basta? Claro que não. Mais do que se cultuar a idolatria aos mestres, é preciso se transformar em um.
Ao invés de se idolatrar o mestre é preciso aprender a viver a existência carnal como ele fez; ao invés de se declamar os ensinamentos ou transformá-los em obras de arte virtuais, é preciso colocá-los em prática na existência carnal, como os mestres colocaram, provocando a mudança da vivência da vida para poder se chegar a Deus.
O aproveitamento da vida não está na cultura, mas na transformação que os ensinamentos podem causar na existência de cada um. É preciso que o ensinamento acabe com a paz fundamentada na realização dos desejos humanos e se transforme em uma espada que sirva para ferir mortalmente o padrão humano de viver ao qual o espírito está escravizado pelo ego ("Não vim para trazer a paz, mas a espada” - ensinamento de Cristo).
De que adianta se dizer cristão, idolatrar Cristo, se na hora de nossa crucificação (passar por momentos de contrariedade, insatisfação) agimos como Pedro, que ao saber que o mestre iria terminar sua missão na cruz, convocou a todos para orar pedindo ao Senhor que afastasse aquele futuro?
Que adianta nos dizermos budistas, se ainda nos apegamos aos prazeres da vida carnal criados pelos cinco agregados ao invés de compreendermos a primeira nobre verdade (tudo é sofrimento, mesmo a realização do que gostamos) e percorrermos o "Nobre Caminho Óctuplo" que leva ao desapego?
De que adianta nos dizermos seguidores de Krishna se ainda perdemos a equanimidade adorando os "santos" que conseguiram colocar em prática os ensinamentos do mestre, ao invés de tratá-los como seres comuns?
De que adianta apenas dar o pão se a verdadeira caridade está em dar ao próximo a liberdade de ser, estar e fazer o que quiser (respeitar os seus direitos), mesmo que isso fira nossos desejos, sem críticas, como ensina o Espírito da Verdade?
De nada adianta tudo isso. Caminhando deste jeito vivemos uma vida de ilusão crente que realizamos algo, mas quando saímos da carne a desilusão é grande, pois não percorremos o caminho ensinado pelos mestres, mas, presos ao nosso ego, vivemos aquilo que nosso senhor queria.
Acredito que o ensinamento máximo que podemos aprender para poder viver esta existência com resultados positivos para a eternidade espiritual que ainda temos pela frente, está resumida na seguinte frase: "não somos seres humanos vivendo aventuras espirituais, mas seres espirituais vivenciando uma aventura humana".
Quando isto for realidade, com certeza viveremos a nossa vida como os mestres viveram as deles e aí, estaremos mais perto de Deus do que estamos.
Existem pessoas muito mais aptas para definir a assistência ao próximo do que eu ou você. Somos apenas reprodutores de ensinamentos passados por outros e, por isso, "beber na fonte" acho que é a maneira mais saudável para se iniciar uma conversa que visa abordar o tema da caridade.
Eu, por minha parte, acho que a melhor definição da caridade (assistência ao próximo) foi dada pelo Espírito da Verdade ao responder a Kardec: "benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas" (pergunta 886 do LE). Creio que estas frases encerram todas as citações que você fez além de também servirem de base para centenas de outras definições que conhecemos sobre o tema.
Mas, creio que apenas conhecer a definição sobre o que é assistir ao próximo não encerra o debate, pois a assistência é uma ação e, portanto, cercada de mais elementos. Ninguém assiste simplesmente, mas presta assistência a alguém e de alguma forma. É exatamente aí, para mim, que se inicia o problema da nossa ignorância (falta de conhecimento).
Todos aqueles que fazem da caridade uma bandeira de vida afirmam estar se comportando dentro dos preceitos fundamentais de tal ação, mas isto não é realidade. Para mim a caridade praticada no planeta Terra é "capenga" ou viciada, pois ela não avalia estes aspectos (quem e como) para a sua existência. Deixe-me expor um pouco mais fundo esta posição.
A quem prestamos a assistência? Aos carentes materiais. Ninguém se preocupa com os abastados na hora de buscar assistir o próximo, mas apenas com aqueles que estão passando "necessidades". Assistimos aos famintos, doentes, as crianças abandonadas e aos velhos nos asilos, mas esquecemos daqueles que tem o que comer, saúde e vivem integrados às comunidades cercados de "amigos". Por que?
Porque nossa assistência é fundamentada em valores materiais. Para nós somente os que materialmente falando estão carentes precisam ser assistidos. Será que isso é verdade? Claro que não. A assistência deve ser direcionada a todos e não apenas àqueles que, a partir de nossos critérios, necessitam dela.
Porque não assistimos aos abastados? Porque imaginamos que eles não precisam. Afinal de contas, eles já têm tudo aquilo que dizemos que é necessário para a existência carnal, para que precisariam receber caridade? Será que isto é verdade?
Novamente é claro que não. Tanto o ter como a carência (não ter), são apenas provas para o espírito, ou seja, não são posses materiais, mas instrumentos de carma. Todos somos espíritos vivendo nossas provações e temos que nos apoiar mutuamente para podermos superar nossas vicissitudes (alternância entre ter e não ter). O rico precisa tanto da assistência espiritual como o pobre, o com saúde precisa tanto da caridade como o doente, os acompanhados precisam, às vezes muito mais, do apoio do que aqueles que estão nos asilos e nos orfanatos, pois também estão vivendo uma etapa da vicissitude, que é o elemento da expiação em uma encarnação.
Você me dirá que também presta assistência aos abastados, que os ama, mas será que isso é real? Como posso provar que não prestamos assistência a todos, mas apenas àqueles que achamos que precisam de nossa ajuda? Verificando que não somos benevolentes, indulgentes e nem perdoamos sinceramente aqueles que tem posses dentro dos critérios materiais. Para os carentes temos sempre a palavra de apoio e carinho, mas para os abastados está sempre presente a crítica por não dividirem seus bens, por não auxiliarem o próximo. Onde a benevolência, a indulgência e o perdão a eles?
Na realidade aqueles que na nossa avaliação não precisam da caridade são os elementos que necessitam muito mais da nossa assistência (benevolência, indulgência e perdão) do que os carentes, pois estes são irmãos espirituais que estão afastados de Deus.
É muito mais fácil você ver, por exemplo, alguém que não tem o que comer estar em paz com Deus e com a vida do que aqueles que possuem muitas opções para escolher. Estes, pelo ilusório poder de imaginar que podem ter o que quiserem se deixam prender-se às paixões criadas pelo ego e sucumbem aos desejos, gerando o apego ao mundo material que, conforme todos os mestres ensinam, nos afasta de Deus. São, portanto, carentes, espiritualmente falando, e precisam de nossa assistência.
Mas, por que não enxergamos isso? Porque estamos presos à ilusão fantasmagórica da vida.
Não assistimos o abastado porque para a assistência consideramos apenas os valores materiais e não os espirituais. Achamos que eles já tem tudo que se pode ter (bens materiais como condição financeira, subsistência, saúde, etc.). Na verdade não os assistimos porque ainda nos interessamos pela vida humana, porque queríamos ter tudo o que eles tem para nos sentirmos realizados.
Apesar de nos dizermos espiritualistas ainda achamos que a realização material (paz, saúde e felicidade fundamentadas no elemento material) é o que mais importa. Esquecemos que o que importa nesta vida é a realização espiritual e que o único bem que levamos dela é a capacidade de ser feliz incondicionalmente, que é o fruto do amor a todos e a tudo.
Tudo que é material acaba com a morte. A saúde, a prosperidade material e a felicidade embasada em posses materiais encerram-se com o desencarne. De volta ao mundo real o espírito vai viver outra realidade, outras necessidades. A saúde e a capacidade de prover o seu sustento não possuem mais valor algum para ele. Apenas o quanto formos felizes a partir da comunhão com Deus é o que importa para o espírito.
Portanto, de nada adianta buscarmos compreender o que é assistência enquanto a realizarmos apenas aos carentes materiais. Devemos primeiramente nos concentrarmos em nos tornamos aptos para assistir a todos. Mas, isto só conseguiremos quando perdermos o interesse pela realização material (ter alimento, saúde e prosperidade), ou seja, quando não mais tivermos como padrão de auto realização os valores humanos, mas apenas os espirituais.
Quando o fiel da balança para se determinar quem precisa de nossa assistência não for mais os "sonhos" materiais, mas apenas a realização espiritual em vida, poderemos, então voltar a pensar em assistir ao próximo. Enquanto isso, busquemos entender o ensinamento de Cristo (quem quiser ganhar a sua vida, a perderá) e lutar para se libertar dos nossos padrões que determinam aqueles que precisam de assistência e aqueles que já tem tudo o que poderiam ter.
Esta é a melhor assistência que podemos realmente prestar a qualquer irmão espiritual encarnado neste momento de nossa evolução espiritual.
Um dos comentários que mais ouço quando o assunto é buscar a reforma íntima (a união com Deus) é de que a vida como está hoje (atribulada, corrida, cheia de compromisso, responsabilidade e problemas) impede que se coloque em prática os ensinamentos dos mestres para nos aproximarmos de Deus. No entanto, tal comentário denota apenas submissão à ilusão com que vivemos. Não deixamos de realizar a elevação espiritual por causa da "vida" que vivemos, mas por que acreditamos que estamos "vivos".
Não somos seres humanos que vivem esporadicamente aventuras espirituais, mas um espírito que está vivendo uma aventura humana. Os valores são diferentes se entendermos a nossa essência, a nossa Realidade: ser um espírito encarnado e não um ser humano.
A existência carnal, com todos os atropelos e problemas, não existe: é uma mera criação do ego para a nossa provação espiritual. Quem quer resolver a sua vida material, vivenciando-a a partir do prisma material, nada consegue no sentido de aproximar-se de Deus, pois vive a ilusão ao invés de realizar a Realidade.
Não temos nada a fazer nesta vida. Não temos nada a construir, nada a decidir, nada a organizar. A "vida" é organizada por si mesmo, ou melhor, pela inexorável ação da lei do carma e da interdependência. De nada adianta nos preocuparmos com ela, pois ela se desenrolará da forma que tiver que desenrolar.
No entanto, nosso "futuro" espiritual não. Ele depende de nossas ações espirituais atuais, ou seja da nossa capacidade de amar a tudo e a todos de uma forma equânime e incondicional através do despojamento às coisas materiais. Nosso "futuro" espiritual, sim, precisa de ação urgente e imediata. Como um paciente de UTI precisa ser monitorado vinte e quatro horas por dia, mas dedicamos a ele apenas o tempo que sobra depois dos afazeres materiais.
Precisamos nos lembrar que não viemos parar nesta "carne" à toa. Se aqui estamos é porque antes da encarnação nos comprometemos conosco, com a nossa comunidade espiritual e, principalmente, com Deus, em olvidar todos os esforços para aproveitar a encarnação como elemento de elevação espiritual. Assumimos um compromisso empenhando nossa "palavra" de que daríamos até a "última gota de sangue" para aproveitar a "chance" que estávamos recebendo, mas aqui, iludidos por maya achamos que nossas responsabilidades são outras.
Achamos que somos responsáveis pela "vida" nossa e dos outros, esquecendo-nos que a "vida" é uma dádiva de Deus. Achamos que somos responsáveis pelo futuro de nossos filhos esquecendo que eles possuem um Pai que é Onipotente, Onipresente e Onisciente. Preocupamos-nos em crescer materialmente, em que a justiça sempre prevaleça, que nossos sonhos e desejos se realizem, mas esquecemos de nos preocupar em sairmos vitoriosos espiritualmente da "vida".
Não estou aqui fazendo apologia do suicídio nem da inércia, mas da ação consciente do que é mais "importante" para a nossa eternidade. Melhor seria ser um lixeiro em paz e harmonia com o Universo do que um doutor que não tem tempo para servir o próximo. Melhor seria que todos galgassem postos mais elevados materialmente falando mesmo que pisando sobre mim do que ganhar mais mas perder a paz de espírito com medo de ser seqüestrado ou assaltado.
O que estou defendendo é uma mudança de foco da vida. Antes de mais nada devemos nos preocupar com nossa eternidade espiritual e não apenas em satisfazer nossos sonhos e vontades mundanos. Trabalhar não para ganhar dinheiro ou conquistar a fama, mas para servir o próximo; participar da vida para encontrar Deus e não para realizar-se.
Esta é a grande mudança que o novo tempo que todos os mestres afirmam que chegará contemplará. Não importa como você o chame (Mundo de Regeneração, Era de Aquário, etc.) o que realmente marcará a "mudança" da humanidade é a conscientização de que somos e sempre seremos espíritos. A partir daí as responsabilidades e objetivos mudarão e poderemos, então, finalmente aprender a viver em harmoniza, paz e amor com tudo e com todos.
Portanto, a alegação de que o mundo como está nos tempos atuais não deixa buscar a Deus é mais uma ilusão do ego para que possamos vencer mais uma batalha. Quem a utiliza como desculpas é porque ainda está preso à busca do bem material, mesmo que seja a dor.